1488 €

Luis de Matos - Thursday, June 07, 2012 - Comments (0)

No contexto das simbologias urbanas contemporâneas, o número 1488 aparece habitulamente associado ao lema criado pelo nacionalista branco e criminoso, David Lane, no âmbito das ideologias Nazi que defendia. Os primeiros dois dígitos do número 1488 referem-se à sequência de 14 palavras que compõem o referido lema "Devemos assegurar a existência do nosso povo e um futuro para as crianças brancas", popularizado como slogan por nacionalistas brancos. Os últimos dois dígitos, 88, referem-se à oitava letra do alfabeto, o “H”. 88 traduz as duas letras “H” que evocam a expressão "Heil Hitler". Por muito hediondo que este significância possa soar, o facto de colocar o símbolo de € à frente do número não traduz uma menos vergonhosa e surpreendente realidade. 1488€ não se refere às ideias de um qualquer louco e uns quantos seguidores. 1488€ é tão somente o “preço de mercado” de uma pessoa quando transaccionada dentro da comunidade europeia.

O tráfico humano é um crime contra a humanidade. No entanto, na Europa, o seu crescimento é exponencial. As principais vítimas desse crime horrendo são meninas e jovens mulheres, escravizadas e exploradas pela indústria clandestina do sexo. 1488€ é o preço médio pago “por cabeça” dentro da Europa por criminosos sem escrúpulos. Seja para trabalhos forçados, sexo, ou simplesmente para desfazer em peças para venda de órgãos, o tráfico de pessoas cresce diariamente. Os criminosos, como micro-organismos que ganham resistência a um fármaco, alteram constantemente o seu modus operandi tornando cada vez mais difícil controlar um processo em constante ascensão e em permanente readaptação.

As histórias que se conhecem começam por vezes com um simples convite de um aparente amigo de longa data, acabando com a obrigação de gerar um mínimo de 1000 euros diários, sob ameaça de morte extensível a toda a família. Isto está a acontecer hoje na Europa. É absolutamente inaceitável, e apenas concebível pela força das provas que, em pleno século XXI, ainda seja necessário unir esforços e despertar consciências que permitam encetar uma luta contra a escravatura. Um mercado que, para além de mulheres e meninas, absorve igualmente homens e rapazes. Falamos de cidadãos europeus a serem vítimas no seu próprio continente. Cidadãos que são vendidos, nalguns casos, por amigos e familiares que incluem tios, irmãos e até pais.

Infelizmente, apenas um em cada oitocentos casos acaba em condenação para o criminoso. Em parte porque as vítimas que sobrevivem se recusam a testemunhar contra os seus agressores com medo de retaliação. Por outro lado, como podemos continuar a aceitar na Comunidade Europeia países que apresentam elevados níveis de um crime contra a humanidade como é o  tráfico humano?

Esta forma de escravatura moderna é mais um dos factores que ajudam a suportar os números que revelam haver hoje mais escravos no mundo do que em qualquer outro momento da história da humanidade. O seu número estima-se em 27.000.000 de pessoas. Seres humanos forçados a trabalhar, sem remuneração, sob a ameaça de violência e impossibilitados de procurar uma vida melhor. Podemos encontrá-los em bordéis clandestinos, fábricas, minas, campos agrícolas, restaurantes, construção civil e até em casas particulares. A escravatura é illegal nos quatro cantos do mundo, mas acontece hoje em todos os países. Acredita-se ser possível acabar com a escravatura nos próximos 25 anos, contudo, para isso é preciso que TODOS queiram. Governos, religiões, negócios, organizações, consumidores e, especialmente, cada um de nós.

“Seres humanos que se vendem para tudo, até para desfazer em peças…”

Felicidade

Luis de Matos - Thursday, May 31, 2012 - Comments (0)

Em Coimbra, o poder do futebol tem mais encanto. Fora das grandes lutas de poder e das sempre “alegadas” negociatas, a Académica consegue reunir consensos e paixões que chegam a mover montanhas quase tão grandes como as da fé.  Ser da Académica é uma condição quase inata para aqueles que vivem a cidade ou os que para sempre a recordam por nela terem passado o mais memorável e irrepetível período das suas vidas.

No passado Domingo, o sonho de muitas gerações foi realidade. A Académica conquistou, pela segunda vez desde 1939 a Taça de Portugal ao derrotar o Sporting na final por 1-0, no Estádio Nacional. Sobre a mítica equipa de Coimbra tornou-se célebre a frase “Se jogasses no céu morríamos para te ver”. Foram muitos os que viveram o sonho de voltar a ver a taça viajar para Coimbra sem nunca chegar a poder celebrar essa glória. Neste dia vêm-me à memória aqueles que vi chorar e sofrer, sorrir e celebrar cada instante do clube dos estudantes. Recordo três de muitos milhares... o Senhor Armando Viana, o Dr. Júlio Condorcet e o carinhosamente chamado “pilas” que chegou a salvar o meu pé esquerdo com as suas milagrosas mãos.

Os eternamente estudantes embrulharam-se nas capas, de hoje e outrora, deixando que o espírito e a paixão tomasse conta do momento e exaltasse setenta e três anos de desejo no cumprimento de um sonho trangeracional. Entre gritos de vitória e académicos, os estudantes que viajaram até ao Jamor celebraram também a nostalgia de 69 e não se coibiram em fazer presente a luta estudantil da actualidade.

Num tempo que já não é o de antigamente, com uma equipa plenamente profissionalizada, é muito bonito e revelador ver as televisões referirem-se à Académica como “Os Estudantes”. Bonito porque o espírito se mantém e mais simbólico ainda pelo facto de não ser sequer necessário dizer de onde são esses estudantes.

Numa ocasião como esta é bom recordar e agradecer a todos quantos salvaram a Académica, a todos quantos fizeram seu o sofrimento do colectivo, enfim, a todos quantos, à sua maneira, contribuiram para manter a chama acesa.

De tudo quanto vi e ouvi, apenas uma nota negativa para a RTP que não resistiu a vergonhosamente aproveitar o embaraçoso momento da taça que teimava em se desmanchar nas mãos do Presidente da Académica. Como estação pública, e desejavelmente de referência, a RTP devia ter mantido a compostura e o respeito pelo momento de glória. Não era o sítio nem o momento para entrevistar José Eduardo Simões. O respeito institucional não deve sucumbir à graçola jornalística. O Presidente da Académica esteve muito bem e usou o momento para metaforizar a persistência e tenacidade do clube. Ainda assim, “shame on you” RTP.

Em Coimbra, à medida que o tempo passava uma multidão de apaixonados ia reunindo-se para celebrar o sonho. Já depois da meia-noite, a comitiva foi recebida com a força da circunstância e a pompa imposta pelo sonho feito realidade. Parabéns, Briosa!

“O dia com que há 73 anos muitas gerações sonhavam…”

CHAOS 2.0

Luis de Matos - Thursday, May 17, 2012 - Comments (0)

Já lá vão sessenta e oito semanas em que venho trazendo a este espaço boas e más  “ideias… dos outros”. Hoje não resisto à tentação de vos falar de uma causa própria. É uma causa colectiva na medida em que engloba não só aqueles que tenho a honra de que trabalhem comigo mas, igualmente, todos quantos me perguntam “para quando um espectáculo em Coimbra?”.

Em 1996, realizei na cidade de Coimbra o meu primeiro espectáculo de Teatro. Aconteceu durante quatro noites no Teatro Académico de Gil Vicente e chamava-se “Luis de Matos Especial”. Contava com as participações especiais de Tina Lenert (Estados Unidos), de Juan Gabriel (Espanha), o cenário era do Arquitecto Nuno Lacerda Lopes e tinha o apoio de Ricardo Pais à direcção cénica. Ao longo dos anos a minha carreira vem-se cruzando com a história do TAGV e, no próximo sábado, escrever-se-á mais uma passagem dessa longa caminhada.

No início deste ano começámos com a itinerância do espectáculo CHAOS, após a estreia que aconteceu em Dezembro passado no Casino Estoril. Já visitámos cidades de norte a sul de Portugal e assim continuará até finais de 2013. O próximo Sábado será para nós muito especial… o CHAOS chega a Coimbra.

Numa altura em que os recursos escasseiam e em que cada família procura fazer a mais apertada das gestões, é com grande alegria que vimos percebendo que muitos já aceitaram o desafio de passar parte do dia 19 connosco. Prometemos dar o nosso melhor e ser merecedores da decisão de todos quantos a nós se juntarem no Teatro Académico de Gil Vicente a partir das 21:30.

O espectáculo CHAOS foi integralmente desenhado, projectado, construído, e em cada sessão operado pelo grupo de pessoas que diariamente me acompanha nas aventuras e desventuras próprias da profissão que escolhi. O nascimento deste novo trabalho, ao longo dos últimos dois anos, foi lento e intenso. Quando escolhi a temática e decidi o seu nome CHAOS, estava longe de imaginar que viria a ser apresentado no pleno caos em que hoje vivemos. Mas, como disse Saramago, o caos é apenas uma ordem por decifrar… Esperamos por todos vós no próximo Sábado!

Dia 19 será igualmente um dia para nos unirmos em torno do grande dia que se lhe seguirá… Força Briosa!

“Encontramo-nos no próximo Sábado, pelas 21:30, no TAGV?”

Chocolate

Luis de Matos - Thursday, May 10, 2012 - Comments (0)

Negro, de leite ou branco, puro ou misturado, em barra, líquido ou mousse, quase todos gostamos de chocolate. À semelhança daqueles que julgam que os frangos surgem na natureza já embalados em covetes de esferovite e protegidos com película transparente, a grande maioria dos consumidores de chocolate não faz a mais pequena ideia de tudo aquilo que teve que acontecer para que o prazer do chocolate pudesse chegar a ser sentido. Em pleno século XXI, poucas pessoas têm consciência das grandes diferenças que separam as crianças que apanham o cacau daquelas que experimentam o produto transformado.

Anualmente, a “Federation of Cocoa Commerce” reúne em Londres, por um dia, cerca de mil pessoas que representam todos os sectores e vertentes envolvidas no negócio do cacau, da colheita à distribuição, passando por todos os produtos que nele se baseiam. Líderes de todo o mundo reúnem-se para discutir o futuro do negócio. Tudo aconteceu no passado dia 4 de Maio, em Londres, no magnífico hotel “Grosvenor House”. Estive por lá e descobri um mundo surpreendente. Ter a noção de todos as fases e procedimentos faz-nos saborear de outra forma um “simples chocolate”. O cultivo, a colheita, a fermentação, a secagem, a limpeza, e tantas outras longas e meticulosas fases pelas quais o cacau passa até à transformação final, e consequente chegada às prateleiras, é, de facto, algo que merece um enorme respeito e admiração.

O cultivo do cacau remonta há mais de três mil anos. Hoje discute-se o aumento de produtividade, a melhoria da qualidade e a urgente necessidade de implementação de um modelo de exploração que assente na sustentabilidade, como forma única de assegurar a continuidade da produção de cacau. Os três pilares da desejada sustentabilidade assentam fundamentalmente em três vertentes: económica, social e ambiental. Em termos económicos procura-se uma mais justa divisão de valor entre todos os intervenientes. Note-se que o cultivo e produção de cacau assenta, ainda, em grande parte, em trabalho infantil e de mulheres. É importante aumentar a qualidade das explorações e encontrar formas de pré-financiamento. Ao nível social luta-se pela igualdade de oportunidades, investe-se no desenvolvimento rural e começa a investir-se fortemente na educação e saúde das comunidades produtoras. Finalmente, em termos ambientais, é agora dada maior atenção à conservação das florestas e à biodiversidade.

A Federação do Comércio de Cacau promoveu, assim, e uma vez mais, a partilha de conhecimentos ao mais alto nível. No final do dia, todos os participantes se reúnem num jantar de gala onde celebram o cacau e prometem tudo fazer por um futuro melhor para a indústria que, de alguma forma, a todos nos toca. No meu caso concreto, senti esse dia de uma forma especial. Por um lado, tive o privilégio de escrever e protagonizar o espectáculo de encerramento, intitulado “The Magic of Cocoa”, ao lado dos míticos “Rat Pack” que foram responsáveis pelo baile noite dentro. Por outro, trouxe comigo especial alegria patriótica... Poucos saberão que até à passada sexta-feira a Federação era chefiada pela portuguesa Filipa Secretin. Um orgulho para o país e um exemplo de que, no mundo global em que hoje vivemos, não há fronteiras para a excelência.

“Três mil anos depois, a indústria do cacau continua a ser reinventada...”

Es.Col.A

Luis de Matos - Thursday, May 03, 2012 - Comments (0)

O acto de ocupar um espaço ou construção abandonada, sem permissão dos seus proprietários legais, é conhecido como “okupa”. Esses actos nada mais são, na sua grande maioria, que invasões de propriedade. São mais comuns nas áreas urbanas e quase sempre encerram contornos de vandalismo, toxicodependência ou prostituição.

Nas últimas semanas foi notícia, e triste realidade, o abuso de poder e a insensibilidade da Câmara Municipal do Porto face ao “Es.Col.A”, o Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha.

A 10 de Abril de 2011, um grupo de pessoas ocupou a antiga escola primária do Alto da Fontinha, no Porto, até então devoluta e abandonada há mais de cinco anos pelo município que a devia manter. Depois de um mês de ocupação do espaço, a Câmara Municipal do Porto ameaçou o despejo violento e o emparedamento do edifício. Até nada parece estranho. O problema surge quando se percebe que o único crime que esse grupo cometeu foi o de pintar e recuperar a escola para aí organizar, gratuitamente, actividades escolares e culturais para a comunidade do bairro, afirmando desde a primeira hora que sairiam assim que os moradores quisessem. Rapidamente o colectivo bem feitor granjeou o apoio incondicional dos vizinhos. Desocupada e vandalizada desde há cinco anos, este singular grupo de cidadãos devolveu ao bairro da Fontinha algo de absolutamente vital suprimindo as necessidades que o poder eleito não entendia como básicas e primordiais.

Estes “ocupas” de formação académica e ideais solidários, com vocação de serviço público, organizavam regularmente, e com enorme participação da comunidade, actividades no âmbito do cinema, aprendizagem de inglês e espanhol, ateliers de pintura e leitura, aulas de apoio e explicações nas mais variadas áreas.

O comportamento da Câmara Municipal do Porto não poderia ser mais reprovável. Nas vésperas de mais uma comemoração do 25 de Abril, polícia armada, a mando de um poder eleito, destruiu tudo quanto pôde, não só trabalhos e mobiliário recuperado mas também o próprio edifício, das paredes ao telhado. A comunidade está revoltada e não entende. Em muitos outros edifícios transformados e antros de droga e prostituição não há coragem de encontrar soluções, porém, a renascida Escola da Fontinha pecou pela afronta de quem quer fazer bem o bem, sem sequer reclamar qualquer compensação que vá para além do prazer de um exercício de cidadania tão raro que até se estranha.

Dias antes de nos deixar, Miguel Portas dizia na rede social Facebook: “A Es.col.a da Fontinha, que tem um trabalho mais do que meritório com a população do bairro, está a ser despejada à bruta por uma cruzada de políticos idiotas. Que todas as boas vontades se juntem contra a estupidez. Já.” Palavras sábias e inspiradoras para a urgente necessidade de reinvenção da cidadania.

“CMP evoca 25 de Abril de forma “espectacular” e mediática …”

EMC2012

Luis de Matos - Thursday, April 26, 2012 - Comments (0)

Em 2009 tive uma ideia. Como quase todas as super ideias, também esta, parecia tão fantástica quanto irrealizável. Basicamente o sonho consistia numa cadeia de união, global, composta por verdadeiros amantes da Arte Mágica. Na linha da frente os grandes nomes da actualidade, os pensadores mais arrojados e os criadores mais surpreendentes. Em número de 33, reunir-se-iam algures no mundo e a partir daí partilhariam o seu conhecimento, o seu génio e a sua paixão, em directo para os quatro cantos do planeta.

Partilhei a ideia com a minha equipa e com alguns daqueles que, enquanto exemplos a seguir, gostaria que participassem na loucura por mim sonhada. A somar a tudo isto existia ainda a circunstância de que queria que tal evento acontecesse no nosso Estúdio33, em Ansião. Esta seria a génese da primeira conferência mundial de magia na internet. Durante três dias, trinta e três dos mais conceituados nomes da magia mundial reúnem-se am Portugal, mais concretamente em Ansião, para partilhar com o mundo inteiro o melhor de si.

Prometemos concretizar o sonho durante três anos. Nesse período tudo muda e o que antes era absolutamente inovador rapidamente se converte em lugar comum. Assim, terá este ano lugar a terceira e última edição da “Essential Magic Conference”. No final destas três edições todas as estrelas da magia mundial terão dado o seu contributo para as gerações futuras. No primeiro ano foram 42 os países que assistiram em directo ao que se passou em Ansião. No segundo ano, em 2011, a Essential Magic Conference foi vista em 62 países por quase dois mil participantes. Em Julho próximo, trinta e três estrelas da magia voltam a encontrar-se em Ansião e a falar para o mundo.

A quem assiste à Essential Magic Conference não lhe interessa se estamos em Ansião, Nova Iorque ou Tóquio. Aquilo que todos sabem é que participam na mais importante e apaixonada reunião dos melhores entre os melhores. Learn (aprender), Share (partilhar) e Collaborate (Colaborar) são as três palavras de força que emergem desta singular reunião. A parte final da trilogia sonhada em 2009, e iniciada em 2010, acontecerá de 27 a 29 de Julho próximo.

Quando ouvimos os “velhos do Restelo” dizer que tudo está feito e inventado, a resignação é apenas uma opção de escolha. É sempre possível continuar a desbravar novos territórios se essa for a nossa genuína vontade. Olhemos em redor e percebamos como podemos nós fazer a diferença. As palavras com que escrevemos a nossa história são uma escolha inteiramente pessoal.

“De Portugal para o Mundo, os melhores encontram-se em Ansião …”

Perdoem

Luis de Matos - Thursday, April 19, 2012 - Comments (0)

Há pessoas que, de facto, não sabem o que dizem. Ou porque não pensam antes de se pronunciar ou até porque deliberadamente se escusam de o fazer por terem medo que alguém possa chegar a nelas identificar algum resquício de massa cinzenta. Algumas pessoas acham que “pensar” dá muito trabalho e, pior ainda, pode mesmo acarretar represálias. Determinadas profissões parecem convidar ao autismo voluntário na persecução da mais imbecil das atitudes que, apesar de tudo, se toma a coberto de uma supostamente correcta interpretação de uma determinada lei. A estrela desta história é uma senhora que exerce funções de Directora de Serviços na DSIVA (Direcção de Serviços do Imposto sobre o Valor Acrescentado). Não revelarei o seu nome por respeito aos seus familiares e amigos.

Diz o ponto 2.6 da lista II anexa ao Código do IVA que devem as Entradas em Espectáculos de canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia e circo ser tributadas à taxa intermédia de 13%. Até aqui tudo muito bem. Fica bem esta aparente preocupação com a cultura. O que tem menos graça é que, por absoluto descargo de consciência, e porque estamos actualmente em digressão por todo o país com o espectáculo CHAOS, resolvi contactar a referida Direção de Serviços do Imposto sobre o Valor Acrescentado esperando a resposta óbvia de que a medida se aplicaria a todos os espectáculos em geral, ou pelo menos aqueles que até misturam um pouco de algumas das áreas mencionadas… Atenção! Pára tudo! A resposta que obtive foi negativa! Um espectáculo de magia não se insere na dita alínea porque não é considerado canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia ou circo!!! Digam lá que isto até não teria piada não fosse o facto de ser verdade…

Este episódio recorda-me um documento precioso, que arquivo com carinho na minha biblioteca, e que reproduz uma resposta de quem nos governava antes da revolução dos cravos. Nessa época, um bem intencionado grupo de ilusionistas, com carteira profissional e tudo, como se usava na época, dirigiu a quem mandava um pedido que visava a criação de uma associação profissional. A resposta, lacónica e implacável, não se fez tardar e surpreendia com as seguintes palavras: “… o pedido é indeferido em virtude da expressão cultural em causa não ser digna de ser considerada.”. Naturalmente, a carta oficial terminava com um não menos oficial “A Bem da Nação.” Quarenta anos mais tarde, tenho eu o privilégio de receber uma jóia de resposta que já não pensava ser possível.

Em virtude da mesma alínea excluir claramente as entradas em espectáculos de carácter pornográfico ou obsceno, só posso ser levado a pensar que a dita senhora inclui as minhas apresentações nesse âmbito. Minha querida senhora, aconselho-a a sair mais de casa.

Fica então a ressalva. Não estranhem se virem algum dos meus espectáculos a ser anunciado como canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia ou mesmo circo. Percebem porquê, certo?

“Luis de Matos apresenta o seu espectáculo de tauromaquia…”

Star

Luis de Matos - Thursday, April 12, 2012 - Comments (0)

Talvez poucos saibam que foi como “Disc Jockey”, na discoteca “Star”, que este V. amigo começou a ganhar a vida na segunda metade dos anos oitenta. Ainda menos saberão que as minhas primeiras idas ao dito local de diversão noturna aconteceram em fuga, sem a autorização dos “encarregados de educação”. Claro está que ajudava o facto de viver numa casa térrea, com janelas para a via pública, a cerca de 20 minutos daquele mítico estabelecimento, na Serrada da Mata, em Chão de Couce, e, ainda, o facto de ter por hábito fechar a porta do quarto por dentro, antes de ir dormir. Sábado à noite era dia de, em segredo, ir ter com os amigos à “Star”. Até aqui nada de especial, para além da confissão pública que já nem sequer deverá surpreender os meus pais.

Depois de uma temporada como “cliente”, e já do alto dos meus 16 anos, com uma promissora carreira na “Rádio Nexebra”, a melhor rádio pirata de todos os tempos, foi altura de assumir funções de “Disc Jockey”. Era uma altura em que a lei do trabalho não era propriamente levada à risca e em que era mais seguro ir à noite à discoteca do que, hoje em dia, ir à baixa fazer compras pela manhã. A “Star” abria duas vezes por semana. Sábado à noite e Domingo à tarde era sagrado... todos por lá nos encontrávamos! Durante muito tempo o meu ritual passava por ir umas horas antes da abertura de portas para escolher e ordenar os vinis. Pequenos, grandes, de 33 e de 45 rotações, singles, maxi-singles, LPs ou edições de coleccionador, todos serviam para tentar prever o alinhamento de cada sessão. Tudo isto há sensivelmente 25 anos, num tempo pré-internet, muito antes de se sonhar com computadores pessoais com capacidades que pudessem ir para além do ZX Spectrum que só alguns haviam então tido já o prazer de ver.

Nesta páscoa, sexta-feira passada, dia 6 de Abril, aconteceu algo verdadeiramente mágico. O actual Presidente da Câmara de Ansião, o Dr. Rui Rocha, teve uma adolescência que também se cruzou com a Discoteca Star, tendo nela igualmente exercido funções de “Disc Jockey”. Há uns meses teve a ideia de organizar um encontro público de passados comuns e privados sob a tónica de uma nostalgia que, por vezes, receamos celebrar. O que somos hoje é fruto do que vivemos no passado. Repetidamente estamos preocupados com o dia de amanhã e nem sequer nos reservamos um instante para celebrar a sorte, as escolhas ou as vivências que fizeram de nós o que hoje somos.

No evento “Remember Star”, seis dos past DJs da Star, onde orgulhosamente me incluo, foram responsáveis por manter na pista as cerca de seiscentas pessoas que contribuíram para que a noite fosse mágica. Pessoas sérias e responsáveis de hoje resolveram tirar do armário os adolescentes que outrora foram. Trouxeram a família e os filhos, recordaram paixões, esqueceram rivalidades e traições, permitiram uma celebração única, saudável e memorável que todos desejam que se repita. A crise também se combate assim. Com criatividade e memória.

“Qual jantar de curso, qual álbum de família… Remember Star foi Magia!”

Bancos

Luis de Matos - Thursday, April 05, 2012 - Comments (0)

Há mais de um século, Brecht interrogava-se sobre o que seria pior… roubar um banco ou fundá-lo. A irreverência da sua pergunta não poderia ter maior actualidade. Sob a suposta capa de quem está ali para ajudar, talvez seja mesmo a área de negócio mais perversa e com menos escrúpulos. Diariamente ouvimos pessoas dizerem coisas como “tenho mais medo dos bancos do que dos ladrões”. Habituamo-nos a ver em desabafos como esse uma grande dose de humor e a catalogá-los como simples distorções da realidade feitas pela voz popular. Será assim?

Todos nos queixamos de que o governo protege os bancos em prejuízo dos cidadãos. Os partidos da oposição dizem o mesmo até ao dia em que são governo, voltando apenas a lembrar-se da sua opinião anterior quando deixam ou os arrancam do poder.

Não me chegam os dedos das mãos para apontar os casos que conheço de verdadeira falta de vergonha de alguns balcões quando se trata de cobrar taxas, impingir produtos ou mesmo tentar convencer avaliadores só para que possam despachar mais uns milhares de euros, com o fito exclusivo e cego de cumprir os objectivos do balcão para esse ano, mesmo sabendo que o cliente nunca poderá pagar tal encargo. A última história dessa colecção envolve o famoso cartão Titanium do Banco Santander, onde a protecção ao cliente é totalmente inexistente apesar da publicidade tentadora.

O caso BPN vem dar razão ao povo. Os grandes safam-se sempre. Contudo, nunca lhes chamam ladrões nem os mandam para a prisão. Basicamente, fazem o que querem, roubam em grupo e depois separam-se como nunca se tivessem conhecido antes. O povo grita e o Estado pega no dinheiro de todos nós e paga aos que fazem mais barulho. O esquema parece ser patético mas funciona. No final do dia, os tais senhores que roubaram assistem e comentam com admiração as notícias da tv enquanto degustam uma qualquer delicatessem paga por nós.

Na passada sexta-feira, como habitualmente, rumei a Santiago de Compostela para mais uma participação em directo na Televisión de Galícia. À chegada encontrei polícia e medidas de segurança como nunca em sete anos aí tinha visto. Viria então a perceber que pretendiam proteger-se dos manifestantes que, nesse mesmo dia, haviam tomado os estúdios do Jornal da Tarde lá do sítio. E quem eram? Malfeitores, sindicalistas, trabalhadores precários? Nada disso. Eram pessoas entre os sessenta e os oitenta anos, reformados, sem dinheiro para comer e a quem os bancos acabavam de literalmente roubar todas as suas poupanças de uma vida inteira de árduo trabalho, na maioria dos casos, na agricultura.

Recentemente as famosas “Caixa Nova” e “Caixa Galicia” sofreram um processo de fusão dando origem a um banco convencional mas que escolheu o conveniente nome de “Nova Caixa Galicia”, levando todos a pensar que continuava a ser um “caixa” no verdadeiro sentido da palavra. O natural excesso de directores foi resolvido com acordos milionários. Esses senhores importantes regressaram a suas casas com indemnizações entre nove e catorze milhões de euros. Eu sei que é difícil de acreditar mas, se calhar, eles eram mesmo muito inteligentes, ou, simplesmente, bastante espertos.

Então o que se passou com os clientes assaltados? Chama-se “Participações Preferenciais” e é um produto que tem tudo o que é necessário para que arregalemos o olho e tudo o que é suficiente para não ver o dinheiro nunca mais na vida. Ou, quem sabe, talvez a partir de 2099. O banco oferece uma taxa de 7% de juro a quem adquirir este produto. Nem o cliente ouve mais nada nem o bancário tenta explicar. O que importa é cumprir os objectivos do balcão. Não explicam que a liquidez imediata não é uma opção, não referem que nenhum desses depósitos está coberto pelo fundo de garantia de depósitos e que em caso de falência do banco tudo se perde, muito menos dizem que a única forma de se livrarem do produto é arranjar, por sua conta, quem o compre. Afinal, talvez a pergunta de Brecht não tenha sido assim tão despropositada.

“É preciso desconfiar dos bancos! Eles não querem o nosso bem…”

Villa Pedra

Luis de Matos - Thursday, March 29, 2012 - Comments (1)

Manuel Casal, de Aveiro, filho do dono da mais famosa fábrica portuguesa de motas, tudo fez para protelar o seu eminente, e por todos esperado, envolvimento no negócio da família, acabando mesmo por renunciar e seguir caminho bem diferente. Cedo abriu uma loja de sapatos que mais tarde viria a evoluir para uma das mais conceituadas marcas nacionais, de invejado prestígio internacional, e que me abstenho de referir por nada ter a ver com a realidade que quero destacar e porque poderia correr o risco de, com a sua menção, ofuscar a paixão e a visão com que, a partir de um monte de silvas e ruínas, Manuel Casal criou a Villa Pedra.

Falo-vos de uma aldeia de sonho situada a 181 Km de Lisboa, 147 Km do Porto e a 14 Km de Ansião. A Villa Pedra encontra-se entre Conímbriga, Rabaçal e Santiago da Guarda, as três vilas romanas que caracterizam a região e que inspiraram o nome deste paraíso na terra. Entre os que vivem pelas Beiras poucos terão alguma vez ouvido falar do projecto, porém, Villa Pedra é refúgio de ministros, príncipes, reis e outras celebridades em geral. Ali se refugiam em segredo e experimentam os encantos de uma vista deslumbrante num conforto quase irreal. Chama-se Villa Pedra e está mesmo aqui ao nosso lado. Recebe e apresenta-se a quem a visita, com a genuinidade e excelência portuguesas de que, às vezes, até nos esquecemos que em tanta coisa nos caracteriza.

Em sites conceituados como “Trip Advisor” ou “i-escape”, as críticas e testemunhos classificam esta singular aldeia com palavras de excelência e apelidam-na de “absolutamente paradisíaca”, ocupando as posições cimeiras do ranking de sítios parecidos que nos habituámos a encontrar na Toscana ou no Sul de França. A sua presença online explica-nos que, na encosta da Serra de Sicó, no meio de 3.000 hectares de colinas e olivais, a antiga Aldeia de Cima esteve ao abandono mais de setenta anos até ser descoberta por Manuel Casal que, apaixonado pela sua beleza ímpar, decidiu devolvê-la às novas gerações. Respeitando criteriosamente o espírito da região, recuperou técnicas de construção nas paredes em blocos de pedra calcária cobertas de cal ocre e preservou a base ecológica e estética, garantindo absoluto conforto ao longo de todas as estações. Com quatro das casas concluídas, nasceu a Villa Pedra, cujo conceito assenta nos pilares do bem estar, da tranquilidade, da qualidade e da autenticidade.

Este refúgio ecológico é actualmente composto por sete casas, cada uma autónoma e particular, com grandes áreas de jardim e piscina, com acesso privado e exclusivo aos hóspedes de cada uma das casas. A recuperação das casas da antiga Vila de Cima foi integralmente operada por profissionais da região, usando materiais e mão de obra provenientes das povoações limítrofes. A singular mistura entre a sofisticação urbana e as origens rústicas, tem valido à Villa Pedra a presença em dezenas de páginas de revistas nacionais e internacionais dedicadas à excelência no design de interiores.

Por tudo isto e muito mais, não deixem de visitar a Villa Pedra! Prometo que vão mesmo descobrir “uma coisa nunca antes vista”!

“Se virem por aí alguém muito famoso, não estranhem… está na Villa Pedra!”