Movimento da Batata

Luis de Matos - Thursday, March 22, 2012 - Comments (1)

A minha mãe pertence hoje ao universo dos professores reformados. Professores daqueles que, tendo a seu cargo o primeiro ciclo, definem fortemente a formação de todos nós. Quando o sistema a dispensou, resolveu distrair-se com o quintal, as árvores de fruto e uns quantos animais. As galinhas entusiasmaram-se e começaram a pôr ovos como se não houvesse amanhã. O pão de ló feito com ovos caseiros tornou-se mais frequente e a família e os amigos voltaram a comer omoletas feitas com ovos a sério. Depois de oferecer e impingir ovos a todos, teve a ideia genial de os oferecer a um preço simbólico a algumas pastelarias. A princípio disseram-lhe que não podiam usar os seus super ovos amarelos de gema dupla porque as autoridades fiscalizadoras não o permitiam. Deixaram de oferecer resistência, ainda que não oficialmente, quando perceberam que se tratava de ovos “irrecusáveis”. Mas, claro, a lei não permite…

Com o desemprego a ultrapassar os 20% e o poder de compra a descer vertiginosamente, os Gregos acabam de inventar algo que literalmente está a contribuir para a sua sobrevivência em clima de severa austeridade. Trata-se de um esquema que lhes permite comprar alimentos directamente aos produtores. Conhecido como o “movimento da batata”, trata-se de um processo através do qual milhares de toneladas de batatas e outros produtos agrícolas estão a ser vendidos directamente aos consumidores pelos agricultores que os produzem. Desta forma os consumidores têm acesso a alimentos de altíssima qualidade por um terço do preço que pagariam em condições normais. Por outro lado, os produtores realizam de imediato o seu dinheiro.

O procedimento é muito simples em consequência de uma extrema organização. Os produtores contactam as câmaras municipais lá do sítio e, estas comunicam à população local a natureza da mercadoria que está para chegar, começando desde logo a fazer listas de espera com os compradores interessados. Este verdadeiro modelo económico está a revolucionar as trocas comerciais entre milhares de gregos e promete, a breve trecho, ser ainda mais explosivo na sua disseminação tanto dentro como fora da Grécia. Os clientes ficam mais bem servidos no que à qualidade dos produtos diz respeito, compram mais barato e os produtores não precisam de ficar mais de um ano à espera do dinheiro.

Com a crise, a fome escondida à espreita e as medidas de austeridade a assumirem proporções nunca antes vistas, pelo menos por esta geração, está na hora de nos reorganizarmos. Ou muito me engano ou ainda vamos voltar à troca directa mais cedo do que possamos imaginar. De momento, vou aconselhar a minha mãe a iniciar um negócio de exportação de ovos para Salónia, cidade grega onde o “movimento da batata” se iniciou…

"Gregos descobrem fórmula que ajuda a interromper a espiral da crise…”

Audiências

Luis de Matos - Thursday, March 15, 2012 - Comments (0)

Todas as actividades desenvolvidas nas mais variadas áreas da sociedade, com intuito comercial ou não, são inevitavelmente monitorizadas no sentido de aferir não só a sua eficácia face aos propósitos que determinam a sua realização, mas também numa lógica de custo benefício. Seja qual for o custo, e qualquer que seja o benefício esperado, é imperioso que exista uma lógica orientadora das linhas estratégicas de acção. A única excepção são mesmo a grande parte das companhias de teatro subsidiadas pelo estado que, mesmo quando ao longo de décadas não conseguem criar públicos e continuam a fazer espectáculos para salas cheias de três ou quatro amigos, continuam protegidas pela capa da suposta cultura de missão. Instituto das Artes à parte, tudo é, naturalmente, avaliado. Os critérios devem ser estabelecidos com grande cuidado e mestria no sentido de não se perderem linhas de serviço público que, independentemente de resultados mais óbvios, são vitais para a saúde de um pais e cujo retorno deve ser medido de forma muito específica, ponderada e contextualizada. No entanto, seja o Serviço Nacional de Saúde ou o desempenho dos professores nas escolas, tem que haver um peso e uma medida, uma referência que permita, da melhor forma, avaliar, distinguir e gerir recursos.

No mundo do audiovisual, é a audimetria que literalmente decide a vida de milhares de pessoas. A juzante e a montante de um simples programa de televisão encontramos uma industria cujo dia de amanhã é literalmente decidido pela suposta quantidade de espectadores num determinado dia e hora. Em 1996, quando vi o meu programa “Noite Mágica” ser distinguido com o troféu “Nova Gente” para “Melhor Programa de Entretenimento”, por votação nacional, falei de audimetria nas minhas palavras de agradecimento. Na altura, há exactamente 16 anos, chamei à atenção para o facto da medição de audiências ser tão importante quão pouco fiável. Valores considerados pela indústria audiovisual como absolutos eram, na prática, o simples resultado da monitorização de umas quantas centenas de lares, em nome de uma comunidade de dez milhões de potenciais espectadores. Passados todos estes anos, vemos hoje na ordem do dia o canal público a, com muita razão, queixar-se da mesma leviandade com que se produzem resultados cuja proximidade com a realidade pode apenas ser anedótica. Refiro-me à instalada polémica da adjudicação desse serviço a uma empresa estrangeira que, alegadamente, era a pior colocada no ranking da competência técnica.

Apenas me ocorre dizer que a RTP, actualmente prejudicada com o novo sistema de audimetria, deveria ser o último canal a ter que preocupar-se com tal facto. A estação pública deveria, de uma vez por todas, ser retirada da patética comparação da sua missão, e respectivos parâmetros de avaliação, que tendem a coloca-la, por defeito, ao nível dos canais privados e de intuito comercial. A RTP deve tentar ser a referencia de qualidade ao nível da forma e dos conteúdos. Sou dos que vão mais longe e defendem mesmo que, à semelhança de grandes estações públicas como a BBC ou a TVE, a RTP não deveria sequer ter publicidade.

“A RTP está preocupada com uma guerra que não devia ser a sua…”

BTL

Luis de Matos - Thursday, March 08, 2012 - Comments (0)

Durante 5 dias, de 29 de Fevereiro a 4 de Março, a Feira Internacional de Turismo voltou a acontecer em Lisboa. Anualmente, e depois de 23 edições, a BTL é o espaço partilhado pelos profissionais do turismo, na procura da melhor divulgação e na busca de novas ofertas, tratando-se do maior evento do sector turístico realizado em Portugal. Ali podemos encontrar municípios e regiões que alinham argumentos no sentido de se tornarem na escolha ideal para as próximas férias, o próximo fim de semana romântico, a próxima excursão da família ou o local perfeito para a realização de um grande evento ou congresso.

Coimbra apresentou-se com grande dinâmica e o espaço da nossa cidade na BTL registou um interesse absolutamente acima da média. O Vereador Luís Providência, Presidente do Conselho de Administração da Turismo de Coimbra, preparou, com a sua equipa, quatro longos dias em que uns quantos metros quadrados da FIL se transformaram numa verdadeira sala de visitas da Cidade de Coimbra. Celebrou-se a candidatura da Universidade a Património Mundial da UNESCO e falou-se da vontade de que Coimbra venha a ser a próxima cidade portuguesa capital da cultura. Divulgou-se a vinda de Madonna ao Estádio Cidade de Coimbra e foi anunciado o Eurogym 2012, no qual participarão cinco mil ginastas de todo o mundo.

Muito para além das habituais brochuras e panfletos, o espaço de Coimbra na BTL teve como principal atractivo a visita de inúmeras personalidades, locais e nacionais, que subscreveram e apoiaram as várias iniciativas que, a curto prazo, poderão certamente contribuir para que a centralidade de Coimbra possa tornar-se mais eficaz na captação de turismo e visibilidade a nível nacional e internacional. O Piloto Ricardo Leal dos Santos, com um percurso desportivo verdadeiramente singular, esteve presente com a réplica do carro com que participou no Dakar 2012.

Domingo à tarde, ultimo dia da BTL, fui eu a ter o privilégio de viver o espírito de Coimbra na Feira Internacional de Turismo. Fi-lo de forma partilhada com o mundo. Durante a semana, através das redes sociais, fui anunciado uma transmissão em directo a partir da BTL. Chegadas a 16 horas, e durante 60 minutos, foi altura de informalmente conversar com Luis Providência que, na primeira pessoa, partilhou o espírito, a missão e os pontos altos do Turismo de Coimbra para o corrente ano. A nossa conversa foi vista e ouvida por centenas de pesssoas através da internet, quer no portal Bambuser quer no Facebook. Participaram, ainda, o piloto Ricardo Leal, que nos falou do simbólico apoio de Coimbra à sua participação no Dakar e partilhou histórias e visões de bastidores que habitualmente não chegam a vir a público. Um dos pontos altos da presença “virtual” do stand de Coimbra na internet, e que muito gosto me deu conduzir, foi a participação de Rascão Marques, Presidente da Federação Portuguesa de Remo, eterno apaixonado de Coimbra, de visita ao stand naquela tarde de Domingo.

Também todos e cada um de nós podemos, diariamente, fazer com que Coimbra seja cada vez mais um pólo de atracção turística. Para isso, basta que a tentemos conhecer melhor, viver mais intensamente e, naturalmente, partilhar com orgulho tudo e tanto que ela pode oferecer a quem a visita.

“Via internet, o stand de Coimbra foi para além das paredes físicas da BTL…”

3DS

Luis de Matos - Thursday, March 01, 2012 - Comments (2)

No passado fim de semana, num claro incentivo ao empreendedorismo criativo e inovador, Coimbra foi palco do primeiro 3DS, inicias que identificam o nome “3 Day Startup”. Trata-se de um evento que se realiza com o objectivo de ajudar os estudantes a transformar as suas ideias em empresas de sucesso. As anteriores doze edições do 3DS, realizadas nos Estados Unidos e na Europa, fizeram com que catorze novas empresas viessem a receber mais de quatro milhões de dólares em financiamento.

Gostaria de acreditar que a escolha de Coimbra se prendeu com a sua localização, espírito inovador e empreendedor ou, até mesmo, por ser entendida, pelo menos por nós, como verdadeira cidade do conhecimento. Porém, acho que a principal razão do primeiro 3DS, a acontecer em Portugal, ter sido em Coimbra foi, isso sim, a visão dos seus organizadores locais que não pouparam esforços para que a mesma acontecesse por cá e com grande êxito.

Ao longo de três dias (24, 25 e 26 de Fevereiro) alunos de diferentes áreas juntaram-se para criarem novas empresas de base tecnológica. Este evento iniciou-se em Austin, no Texas, e os seus organizadores colaboraram directamente na primeira edição realizada em Portugal e que teve lugar na Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra. Os participantes debateram as suas ideias, procuraram validação de mercado, desenvolveram modelos de negócio e construíram protótipos, ao mesmo tempo que foram recebendo feedback de mentores e investidores de sucesso.

Pela minha parte, tive a honra de participar como “mentor”. Talvez uma palavra algo exagerada para quem apenas durante a manhã do último dia do evento esteve disponível, para ouvir, comentar e sugerir. Tive oportunidade de tomar formalmente contacto com três das ideias em desenvolvimento. Qualquer uma delas me deixou grandemente entusiasmado. No meu entender, são ideias que não ficaram presas ao eco tardio dos portais de vídeo ou das redes sociais. É preciso criar algo verdadeiramente novo e não simplesmente a versão pobrinha de uma coisa que até já atingiu o seu pico de popularidade há três ou quatro anos.

Sendo desconhecidos os reais valores, aceita-se como estrondosa a percentagem de “startups” que nunca chegam a ver a luz do dia, ou mesmo as que não facturam sequer o suficiente para pagar o tempo que determinado investidor gastou a ouvir a ideia, quanto mais os montantes que nelas foi investido. Quando analisado o êxito das que chegam a conseguir financiamento e operam no Mercado, percebe-se que mais de 70% fecham ao final de cinco anos. Ainda assim, vale muito a pena estimular o fenómeno. Qualquer que seja a percentagem de eventual êxito, quantas mais tentativas forem feitas maiores serão os valores de sucesso absoluto.

Por razões distintas, acredito em qualquer uma das três ideias que referi e que se chamam “UrbanFlow”, “Pick Your University” e “BeFree”. Acredito mesmo que, dentro de muito pouco tempo, todos venhamos a saber o que cada uma delas faz e com isso ficarmos muito felizes!

 “Negócios do futuro, made in Coimbra…”

Marmita

Luis de Matos - Thursday, February 23, 2012 - Comments (2)

Nos últimos dias, a propósito da iniciativa de uma empresa que passou a fabricar uma espécie de lancheiras de luxo, as televisões chamaram a atenção para o facto de os portugueses estarem cada vez mais a levar o seu almoço para o trabalho. O facto relatado poderia ter servido para exaltar o crescente e aconselhável cuidado com o regime alimentar, a forma como criativamente os portugueses enfrentam a crise ou, tão simplesmente, a excelente iniciativa da empresa que re-inventou as lancheiras e as converteu em acessórios de moda. Nada disso. A notícia é dada em tom de desgraça com especial ênfase na vergonha supostamente associada a tal prática. Coitadinhos dos portugueses que têm que levar o almoço para o trabalho… Pergunto eu, e depois? Qual é o problema? Mau seria roubar, ser toxicodependente ou não ter emprego.

Aquilo a que alguns chamam moda da marmita reflecte apenas uma ignorância pretenciosa de muitos em relação a um país real onde, cada vez mais, menos pessoas têm disponibilidade para gastar cento e cinquenta ou duzentos euros, por mês, em refeições rápidas alegadamente económicas. Levar o almoço para o trabalho, para quem puder permitir-se esse luxo, é uma forma de não desperdiçar dinheiro e, acima de tudo, controlar o regime alimentar, tanto na qualidade e quantidade como até mesmo na escolha da ementa. Todos os dias nos queixamos do proibitivo preço dos combustíveis, mas todos achamos normal pagar um euro por uma garrafinha de água de 33 centilitros. Porque será que ninguém faz as contas e percebe que isso faz com que estejamos a pagar a água a mais de três euros o litro? Portanto, mais cara que a gasolina… Pois é, vivemos numa parte do mundo onde a água da torneira é tão boa mas continuamos a cair no comodismo de comprar garrafinhas com rótulos “tipo design”.

Os fundadores da “mescla store” pertenciam ao grande grupo de portugueses habituados a levar a marmita para o emprego. Não gostavam muito do saco de plástico com o Tupperware no interior e não achavam muita graça a ficar com as malas a cheirar a prego no pão. Foi aí que decidiram inventar as lancheiras de luxo. Em vários modelos, com aspecto de malas de grande estilo e distinção, para o menino e para a menina, mais práticas ou mais arrojadas, vêm equipadas com talher, encomendam-se pela internet (código abaixo) e custam cerca de trinta euros.

Para quem está cansado de comer sempre no mesmo boteco ao lado do escritório, já não suporta encontrar-se sempre com os mesmos à hora de almoço e esperar que lhe arranjem uma mesinha, se queixa de que quase tudo sabe ao mesmo, suspeitando da reduzida frequência com que o chefe de cozinha muda o óleo da fritadeira, esta parece ser a solução. Se calhar vamos perceber que não só passaremos a comer melhor como, quem sabe, pouparemos durante a semana o suficiente para, de quando em vez, levar a família toda ao restaurante.

Viva a moda da marmita, abaixo o preconceito patético que ensombra a nossa liberdade.

“A gasolina está cara, mas pagamos o triplo por água engarrafada…”

330033

Luis de Matos - Thursday, February 16, 2012 - Comments (1)

Longe vai o tempo em que aparecer na televisão era só para alguns e em que esse simples facto conferia de imediato um estatuto de singularidade àqueles que nos entravam casa dentro através do pequeno ecrã. A vulgarização das câmaras de vídeo, a democratização das técnicas de edição, a explosão do número de canais disponíveis, o advento da Web 2.0 e as múltiplas plataformas de partilha de conteúdos gerados pelos próprios utilizadores vieram definitivamente alterar o panorama do audiovisiual e a forma como gastamos o nosso tempo. Portais de vídeo como o Youtube permitiram a milhões de pessoas dar a conhecer ao mundo notícias, visões e talentos, bem como expressar as suas opiniões ou até mesmo convocar manifestações à escala global.

Apesar de tudo, o “aparecer na televisão” ainda é diferente do que ser protagonista de um qualquer vídeo na internet. A Portugal Telecom acaba de lançar um serviço que permite aos clientes do MEO poder criar o seu próprio canal de televisão. Trata-se de uma inovação à escala mundial e nos seus primeiros dias de vida superou todas as expectativas, mesmo as dos mais entusiastas. Hoje, qualquer cliente MEO pode ter o seu próprio canal de televisão disponível aos mais de um milhão de subscritores do serviço da PT. Para divulgar este passo de gigante no mundo do audiovisual, a Portugal Telecom convidou um conjunto de personalidades e artistas a criarem os seus canais de televisão. Cada um é inteiramente responsável por vinte e quatro horas de programação. Este V. amigo foi um dos privilegiados com o convite e, por isso, podem agora ver magia a toda a hora, bastando carregar no botão verde do commando MEO e digitir o número 330033. Estamos neste momento a produzir conteúdos exclusivos com que iremos actualizando esta nova plataforma e canal que visa uma comunicação mais próxima e de maior qualidade, em alta definição,  com todos aqueles que nos seguem ou que simplesmente gostam de magia.

Qualquer pessoa pode ter o seu próprio canal e decidir se o quer público ou privado. As famílias vão agora poder constantemente partilhar vídeos e fotografias com a certeza de que tais conteúdos estão disponíveis apenas para aqueles que desejarem. Criar o canal é muito simples, depois basta povoá-lo de fotos e vídeos, definir um código de acesso, caso se deseje privado, e já está. Ainda que, como tantas outras coisas, isto possa ser mais uma moda com os dias mais ou menos contados, o que é certo é que a adesão está a ser extraordinária. De momento podemos por lá encontrar um pouco de tudo, desde canais a brincar até serviços como aquele que diariamente disponibiliza previsões meteorológicas específicas para os concelhos do Alentejo.

O canal 330033 será inteiramente dedicado à arte mágica. Por lá se podem aprender truques, conhecer grandes mestres da magia, ter acesso a imagens de bastidores, conhecer todo o tipo de detalhes a propósito das nossas produções e espectáculos, novas datas da digressão CHAOS, etc.. Vá lá... se tiver MEO experiemente este novo canal de tv...

“Magia 24 horas por dia num novo canal de televisão…”

Austeridade

Luis de Matos - Thursday, February 09, 2012 - Comments (3)

Em economia, austeriade significa rigor no controle de gastos. Uma política de austeridade é necessária quando a dívida é considerada insustentável e a solução evidente é gastarmos menos e produzirmos mais. Vejamos o nosso país como uma família que nunca se cansou de pedir dinheiro emprestado, comprar casas, carros e fazer férias a crédito, jantar fora e organizar festas e, ainda, a quem naturalmente foi faltando a disponibilidade real e mental para trabalhar no pouco tempo que sobrava das actividades lúdicas que preenchem a vida dos seus membros. Uma família a quem os vários cartões de crédito foram sempre o passaporte fácil para um conforto e luxo claramente acima daquilo que eram, através do trabalho, capazes de gerar em termos de riqueza. Portugal é, hoje, assim.

A situação em que estamos mergulhados é muito grave. É tão mais grave quanto mais tempo demorarmos em aceitá-la e decidirmos reagir em conformidade. Ninguém escolheria, por opção própria, dormir na rua, mas as vítimas de um tsunami dão-se por muito felizes se sobreviverem e se, ainda por cima, tiverem uma manta para se cobrirem. Todos gostam de um bom vinho com denominação de origem, mas a muitos milhões de seres humanos como nós bastaria terem acesso a água potável para poderem sobreviver. Todos apreciamos não trabalhar ao fim de semana, mas muitos pais dariam tudo por um emprego mais puxado que lhes permitisse continuar a dar de comer aos seus filhos. É tudo uma questão de perspectiva. Por princípio, nunca valorizamos o que temos, apenas nos ocupamos em lamentar a propósito do que gostaríamos de ter.

Imaginemo-nos, cada um por si, em alto mar, entre a costa Americana e a Europeia. Só há duas hipóteses: nadar ou morrer afogado. Para nadar, a única solução para continuarmos a ter a esperança de chegar a casa, temos que continuar a dar o máximo de nós ainda que exaustos. Se decidirmos afundar é mais fácil, basta baixar os braços e não lutar por nada nem mesmo por nós próprios. Sendo essa solução completamente contra natura, a escolha evidente de continuar a dar aos braços é aquela que não carece sequer de qualquer reflexão. Neste momente só nos resta continuar a trabalhar. E se a coisa não melhorar? Trabalharemos mais. E se, mesmo assim, não parecer estar a dar resultado? Trabalharemos mais ainda. Se quisermos manter o desejo e a esperança de chegar a terra firme, nadar é a única solução. Desistir não é opção.

A atitude autista dos sindicatos, com os seus discursos envenenados replectos de insconsciências e de propaganda barata, tem servido apenas para intoxicar o povo, levando-o a não olhar para o país com honestidade e espírito de missão, onde urge uma atitude de emergência. Estimados senhores importantes, por favor deixem de nos usar como peões das vossas próprias batalhas de poder. Vão acabar alguns feriados, e depois? Qual é o problema? Se alguém não quer trabalhar, há muito quem queira, que precise e, acima de tudo, tem consciência de que essa é a única solução. Se um pai não tiver dinheiro para dar de comer aos seus filhos, o que deve fazer? Roubar, suicidar-se, deixá-los morrer ou trabalhar o mais que puder? A resposta é tão evidente que até custa a ouvir aqueles que se acham sobredotados ao conlcuir que não são desejáveis mais medidas de austeridade. É claro que que nenhuma medida de austeridade é agradável. Os doentes de cancro também não têm prazer nas sessões de quimioterapia, contudo, é o caminho para uma cura que se deseja. Senhores delegados sindicais deixem de nos espicaçar com cenouras penduradas em paus, com patéticas palavras de ordem e, de uma vez por todas, aprendam a motivar-nos! O país só avança se a classe operária estiver motivada e consciente de que o trabalho é a única solução. Defender-nos hoje é, acima de tudo, explicar que o trabalho é a única saída.

“Nadar com todas as nossas forças é a única forma de esperar sobreviver…”


Pirata

Luis de Matos - Thursday, February 02, 2012 - Comments (1)

O termo “pirata” foi primeiramente usado por Homero, na Grécia antiga, na sua Odisseia. O vocábulo descreve os marginais que, sozinhos ou em grupo, cruzavam os mares com o objectivo de promover saques e pilhagens a navios e cidades, obtendo riqueza e poder. O vocábulo acompanhou a evolução do mundo e a sua utilização diversificou-se. Para além do universo da nossa imaginação, conhecemos hoje outras formas de especialização nesta área do crime, como os piratas do ar, os informáticos e tantos outros.  A pirataria, considerada por muitos como o crime do século XXI, movimenta actualmente mais recursos que o próprio narcotráfico, e é uma forma de crime financiada, em grande parte, por grandes grupos organizados e máfias internacionais.

Está na altura de olhar à volta e perceber que, desta vez, e já há muito tempo, somos nós que estamos a ser roubados. O roubo está a acontecer de forma desmedida mesmo debaixo das nossas barbas e com proporções tão óbvias e gigantestas que chegamos a ter alguma dificuldade em acreditar. A realidade a que me refiro é a da Ilha da Madeira e do seu grande capitão Alberto João Jardim. Como é possível que alguém seja responsável por uma dívida de 6.000 milhões de euros e continue em liberdade? Como é possível que alguém faça uma gestão tão ruinosa dos dinheiros públicos e não seja castigado? Pior ainda, como é possível que um verdadeiro mercenário continue a ser eleito pelo povo?

Os que leram o livro “Suite 605”, de João Pedro Martins, estarão certamente familiarizados com a história secreta de centenas de empresas que, na Zona Franca da Madeira, têm a sua sede fiscal numa sala de cem metros quadrados e que, não criando um único posto de trabalho, levam, entre outras coisas, a que a Madeira perca o acesso a fundos comunitários devido ao seu artificialmente empolado PIB. Nessa grande investigação ao offshore da Madeira, são explicados de forma simples, clara e arrepiante todos os truques feitos na Zona Franca da Madeira para fugir aos impostos. No meio de tanto nojo e ruína, que todos nós estamos e estaremos a pagar, os únicos que esfregam as mãos de satisfação são meia dúzia de indivíduos, normalmente com ligações a João Jardim, e que lucram directamente com os esquemas das centenas (sim, centenas) de empresas fantasmas. Alguns desses senhores são os mesmos que ocupam lugares de chefia nas direcções regionais dos assuntos fiscais e outras e que continuam intocáveis, apesar de acusados de variadíssimos crimes de fraude fiscal qualificada, de fraude contra a segurança social e branqueamento de capitais.

Quando uma empresa acumula prejuízos até ao ponto de ser inviável, fecha. Quando alguém não paga a conta da luz, água ou telefone, os serviços são cortados. Basicamente, quando alguém rouba vai para a cadeia, sobretudo se pertencer ao povo. A regra parece ser simples de entender e suficientemente clara para que os intervenientes em cada um dos exemplos sejam, mais ou menos, induzidos a cumprir o estabelecido. Será que 6.000 milhões de dívida não é um valor suficientemente elevado para que alguém vá para a cadeia?

“Uma ilha onde o capitão Jack Sparrow se sentiria entre colegas…”

Alegria

Luis de Matos - Thursday, January 26, 2012 - Comments (0)

Em 1994 a companhia Canadiana “Cirque du Soleil”, pioneiros da corrente artística hoje conhecida como “novo circo”, estreava um espectáculo intitulado “Alegria”. Uma criação tão inovadora que ainda hoje continua a viajar e a encantar públicos de todas as idades pelos quatro cantos do mundo. Estiveram recentemente em Portugal e milhares de portugueses puderam juntar-se aos milhões que já aplaudiram a encenação de Franco Dragone e a banda sonora de René Dupéré.

Desde 1995 que, em espectáculos, festivais e eventos, recorro à utilização do tema que dá nome ao espectáculo de que vos falo. A genialidade melódica que caracteriza as criações de René Duperé tem, na minha opinião, o seu expoente máximo nesta composição que se “entranha” e recorda com a mesma alegria que lhe dá nome.

Em conversa com o Dr. Rui Rocha, Presidente da Câmara Municipal de Ansião, a propósito de que poderia vir a ser o evento que inaugurará o projecto de regeneração urbana da Vila de Ansião, surgiu-me a ideia de reunir, num mesmo tempo e espaço, uma grande parte do talento popular que se divide por cada uma das oito freguesias do concelho.

A ideia passaria por reunir os dez ranchos folclóricos e as duas filarmónicas num momento verdadeiramente único de partilha e celebração. O desafio foi lançado e o benefício da dúvida concedido pelos responsáveis de cada colectivo. Nesse dia estavam ainda longe de saber que a música que lhes viria a propor não seria nada “habitual” numa filarmónica ou típica de um rancho folclórico. Ranchos e Filarmónicas teriam que sair das suas zonas de conforto para se encontrarem num terreno improvável. Sucederam-se os ensaios individuais, os colectivos e finalmente aquele em que todos se encontraram para tocar e dançar a música de René Duperé. O semblante de todos e cada um de nós não escondia a alegria, no verdaderio sentido da palavra, e o orgulho de ver acontecer algo que tínhamos, ainda que por instantes, chegado a duvidar ser possível.

No próximo Sábado, dia 28 de Janeiro pelas 11:30 da manhã, a inauguração da renovada Praça do Município de Ansião far-se-á não só com pompa e circunstância imposta pela presença de políticos e ministros, mas, também e sobretudo, com a mais pura e fiel simbologia. Enquanto espaço público propício ao convívio entre as gentes, à partilha de ideias e ao exercício de cultura, os primeiros dez minutos de vida da nova praça serão da responsabilidade de cerca de quatrocentos talentosos munícipes, numa singular celebração de cultura, assente numa verdadeira cadeia de união de talentos.

Na praça do Município de Ansião, durante cinco escassos mas memoráveis minutos, actuará o colectivo que se compõe com o Grupo Folclórico Cantares de Santiago, o Rancho Folclórico de Pousaflores, o Rancho Infantil Serras de Ansião, o Rancho Folclórico Cantares de São Domingos, o Rancho Folclórico Margaridas da Serra, o Rancho Típico do Alvorge, o Rancho Folclórico Cantares da Primavera, o Rancho Folclórico Flores da Serra, a Sociedade Filarmónica Avelarense e a Filarmónica Ansianense de Santa Cecília, acompanhados por duas solistas e um coro infantil de cinquenta elementos.

Em tempo de crise, quando ainda quase sempre se convidam artistas estrangeiros para inaugurações nacionais, aquilo que no dia 28 irá acontecer promete ser inesquecível, emotivo e inspirador. Apareçam!

Celebrar a comunidade, partilhar o talento, construir o futuro…”


Vergonha

Luis de Matos - Thursday, January 19, 2012 - Comments (1)

Muito se fala sempre que um novo governo faz ou manda fazer determinadas nomeações para certos cargos mais ou menos públicos. Não é surpresa para ninguém que essas escolhas sempre reflectem ligações partidárias ou compromissos mais ou menos evidentes anteriormente assumidos. Em todos os quadrantes políticos existem pessoas competentes, responsáveis, sérias e, algumas até, geniais. É expectável, ou pelo menos habitual, que cada governo escolha pessoas da sua confiança pessoal e política. Nada a dizer em relação a esta quase inevitabilidade.

Todos sabemos que a nossa opinião sobre determinada realidade é sempre altamente condicionada pela nossa relação com essa mesma realidade. Apregoamos sempre uma grande equidistância nos nossos juízos e até chegamos a, ingenuamente, acreditar que estamos a ser imparciais no nosso opinar. Contudo, a realidade é outra. Talvez por isso o povo diga que ninguém é bom juíz em causa própria. Vejamos, por exemplo, os dados de um inquérito realizado a médicos a propósito da alegada influência da indústria farmacêutica sobre as suas prescrições. Oitenta e quatro por cento afirmou que os seus colegas eram influenciados pelas prendas dos laboratórios. No entanto, no mesmo universo de inquiridos, apenas dezasseis por cento admitiu essa mesma influência. É uma questão de perspectiva.

Perspectiva, ou simples vergonha, talvez tenha sido aquilo que o Senhor Dr. Eduardo Catroga perdeu de vez. Há uns meses aparecia na televisão, com um certo sentido de estado e preocupação com o futuro de todos nós, a dizer coisas que o povo até entendia com alguma facilidade. Meio convencidos com os seus argumentos, os portugueses deram a vitória ao seu partido. O pagamento pelos serviços prestados não tardou em chegar. O Senhor Catroga vai agora receber um ordenado milionário e já anunciou que tudo fará para o poder acumular com a sua generosa reforma. Por ano irá receber 639.000 Euros. Mensalmente, este senhor vai levar para casa 45.000 Euros, mais outro tanto de subsídio de férias e de natal. Se conseguir, tudo isto somará aos quase 10.000 Euros que actualmente recebe de reforma.

Algumas vozes mais alheadas poderão simplesmente dizer: “sorte a dele”. O problema é que a oralidade, experiência e visão do Dr. Catroga se transformam em saloice anedótica quando o confrontam com a aberração da situação. Nos últimos dias, o referido senhor já disse coisas como não saber quanto vai ganhar na EDP ou, pior ainda, afirmar que até é bom para o país já que, fruto do seu vencimento elevado, vai pagar muitos impostos ao estado. Isto sim é não ter um pingo de vergonha.

Não tenho conhecimentos ou legitimidade para pôr em causa a sua experiência, competência técnica ou eventual valor estratégico.  Mas, claro, não consigo deixar de me interrogar a propósito das decisões que serão dele esperadas e de que genialidade tão rara será este senhor dotado para merecer ganhar dez vezes mais do que os presidentes das Câmaras de Lisboa ou do Porto? Mas, como o Dr. Catroga diria, este não é o local para discutir “pintelhos”.

Aquilo que é o cúmulo da vergonha é na prática, e apenas, a falta dela…