Censura

Luis de Matos - Thursday, January 12, 2012 - Comments (1)

Não é novo o uso do poder feito pelo estado, ou por intermédio de determinada estrutura, no sentido de controlar e impedir a liberdade de expressão. Na Roma Antiga já o “censor” era responsável pela fiscalização da conduta moral dos cidadãos. Nesse tempo não havia internet. Porém, ao longo da história, o advento de novas formas de expressão foi sempre desencadeando óbvias, ou supostamente discretas, formas de censura.

Na República Popular da China, redes sociais, blogs e serviços de partilha de vídeos e imagens não estão ao alcance dos cibernautas. Sites como Facebook, Youtube, Vimeo, Twitter, Blogsot, Picasa ou Google Plus não podem ser visitados. A internet está igualmente vedada a um grande número de organizações políticas ou não governamentais. Por inúmeras razões, este facto não surpreende quase ninguém. A perplexidade surge quando semelhante discussão tem agora lugar nos Estados Unidos. Apesar de ser uma realidade distante, todos sabemos que as leis mais convenientes ao “poder” são sempre altamente contagiosas, acabando por alastrar de forma rápida e silenciosa. O controlo da internet não só é algo que atrai de sobremaneira quem manda como, em breve, deixará de ser um pesadelo remoto.

O potencial para abuso de poder por meio das redes digitais é uma das ameaças mais insidiosas para a democracia na era da internet. Nos dias de hoje, qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de arte, só pode ser vista como um atentado à liberdade de expressão. Não fora a internet e todos nós seríamos profundamente mais ignorantes, alienados e submissos.

O governo Americano, sob o conveniente disfarce da necessidade da protecção de conteúdos originais, prepara-se para entregar a privados o poder de apagar conteúdos e bloquear sites. Tudo se passa debaixo de slogans de combate à pirataria digital. Como autor e produtor, confesso que me deixa triste nada poder fazer contra os sites que disponibilizam conteúdos por mim produzidos e comercialmente disponíveis em sites como a Amazon. É trabalho e talento que gratuitamente se disponibiliza aos que não têm quaisquer escrúpulos ou respeito. Ainda assim, se esse for o preço a pagar por mim para uma internet livre, não me importo. O que, sim, é ridículo é que o governo Americano dê a grupos privados o poder de banir da internet um vídeo em que um qualquer bebé engraçado dança ao som de um qualquer êxito da Lady Gaga. A desculpa de que o “copyright” foi infringido é apenas o início de um controle que poderá traduzir-se no maior impacto que qualquer forma de censura alguma vez teve.

É proibido tirar fotocópias de livros, no entanto, não me consta que alguma vez alguém tenha sido preso por isso. É proibido conduzir a mais de 120 quilómetros por hora e nem por isso se impõe a comercialização de carros com menos cilindrada. É proibido matar pessoas e a venda de armas continua a ser legal. Deixem a internet em paz! Ou será que têm medo que o povo saiba de mais, descubra algumas maroscas e até organize mais umas quantas manifestações?...

“As regras são necessárias, mas o lápis azul não é o caminho...”


Visualizar

Luis de Matos - Thursday, January 05, 2012 - Comments (1)

Já está! Chegámos a 2012 e parece tudo exactamente igual. Assim é. Na silenciosa e implacável passagem do tempo só nós podemos mudar o que quer que seja. A forma como o mundo nos vê é o reflexo directo da forma como olhamos e interagimos com o que nos rodeia. O início de um novo ano vem sempre carregado de tudo aquilo que uma segunda oportunidade significa… um novo começo!

A melhor forma de aproveitar o espírito de um novo ano que se inicia passa por visualizarmos tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse durante os próximos doze meses. Visualizar de verdade faz-nos, por instantes, antecipar o prazer que sentiremos quando o nosso sonho ou objectivo se converter em realidade. Saborear esse prazer faz-nos lutar de forma mais determinada por um certo sonho ou objectivo. É como se mostrássemos a cenoura a nós próprios…

Para visualizar não basta pensar no que queremos que aconteça no novo ano. É preciso sermos muito honestos com a dita visualização. Visualizar de verdade é imprescindível. Ajuda escrevermos num papel todas as coisas que gostaríamos que acontecessem e pelas quais estaremos dispostos a lutar. Caso contrário, seremos como todos aqueles que se queixam de nunca ganhar o totoloto mas jamais se dão ao trabalho de jogar. Nesse caso, até compreendo quem não joga… se matematicamente analisarmos as probabilidades de ganhar poderíamos chegar a viver milhares de vezes até aos cem anos e, mesmo jogando todas as semanas, nunca ganhar um cêntimo. Na vida é diferente, tudo aquilo que fazemos ou não em cada dia influencia drasticamente o que nos acontece no dia seguinte. É preciso estarmos focados nos nossos reais objectivos mesmo que pareçam inalcançáveis.

Quando habitualmente entramos num carro com o firme objectivo de chegar a um determinado destino, quase sempre chegamos. Isso deve-se ao facto de termos sempre presente o local para onde nos dirigimos. Se, a caminho de Lisboa nos esquecermos, ainda que por instantes, que esse é o nosso destino, é provável que acabemos em Badajoz. Na vida é igual, há que ter sempre presente para onde vamos e porquê. O caminho pode ser longo e tortuoso mas, se a nossa “visualização” for clara e inequívoca, todas as nossas decisões, mesmo aquelas que tomamos de forma menos consciente, acabarão por nos ajudar a chegar onde queremos.

Vamos a isso! Comecemos por escrever num papel tudo aquilo que gostávamos que acontecesse em 2012. Ao escrever, sem quaisquer pressões senão a do nosso próprio desejo, estaremos a visualizar um cenário que nos agrada de sobremaneira. Esse sonho visualizado dar-nos-á a determinação necessária para tudo fazer na persecução dessa lista de objectivos. A vontade move montanhas e a motivação é o combustível que nos ajuda a chegar onde sonhamos.

“O acaso só comanda a vida dos que se recusam sonhar…”


Reabilitação

Luis de Matos - Thursday, December 29, 2011 - Comments (3)

Estamos a chegar ao final de mais um ano das nossas vidas. Essa efeméride poderia celebrar-se todos os dias... todos os dias se completa mais um ano da nossa existência. Contudo, quando esse dia coincide com o primeiro do mês de Janeiro, temos a tendência para lhe atribuir uma simbologia especial. Marca-se o início de um novo ano civil da chamada era vulgar.

Um novo início traz sempre consigo uma sensação de segunda oportunidade na busca de uma melhor realidade. Em cada ano que se inicia somos sempre mais sábios e experientes. Prometemos a nós próprios não cometer os erros do passado e fazer com que, de facto, seja o nosso melhor ano de sempre. É aí que surge o conceito da reabilitação. É urgente reabilitarmo-nos!

Diz-nos a ciência médica que a reabilitação é “um processo global e dinâmico orientado para a recuperação física e psicológica”. Nesse domínio, pretende-se tratar ou atenuar as incapacidades causadas por doenças crónicas, sequelas neurológicas ou lesões fruto das mais variadas causas. Trata-se de um processo global e dinâmico sempre orientado por terceiros. É aí que surge a diferença do que vos proponho. Neste momento das nossas vidas e da sociedade em que nos incluímos, a reabilitação que se impõe só pode ser desencadeada por cada um de nós. Dos valores filosóficos aos monetários, das enfermidades próprias da quadra àquelas que há muito vêm corrompendo a nossa existência, é urgente tomar a iniciativa e tentar fazer a diferença.

Podemos não ser fisiatras, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais ou psicólogos, porém, todos influenciamos e somos influenciados no normal desenrolar do nosso dia- a- dia. Para ser bem sucedida, a reabilitação deve envolver-nos a todos! Mas por onde começar? Primeiro deveremos fazer um diagnóstico e definir as diferentes “patologias, deficiências e incapacidades existentes”. O que podemos fazer para alterar o que está mal? Como podemos melhor controlar o nosso dia-a-dia e contribuir para a reabilitação de uma sociedade solidária, fraterna, responsável e positivamente pro-activa? A isso chama-se planeamento e prescrição do tratamento, depois é só implementar.

Um novo ano está à porta. Proponho que o vivamos com intensidade e espírito de missão, como se do último se trate. Devemos tentar construír cada ano como que essa missão possa ser a nossa verdadeira contribuição para um mundo melhor, mais justo, mais solidário, mais próspero. Quando soarem as doze badaladas do próximo dia 31 deveremos visualizar um cronómetro em contagem decrescente. Teremos doze meses para dar o nosso melhor e para, no fundo, sermos melhores. No final desse tempo seremos nós os juízes… fizemos tudo o que podíamos? Contribuímos verdadeiramente para melhorar a vida dos que nos são mais próximos? Ajudámos a fazer um bocadinho de história de que podemos orgulhar-nos?

Só vale a pena começar um novo ano se estivermos dispostos a fazer a diferença!

“Estamos a tempo de fazer com que 2012 tenha sido um grande ano!”


Zetgeist

Luis de Matos - Thursday, December 22, 2011 - Comments (1)

Termo alemão que traduz o espírito de uma época ou um sinal dos tempos, “zeitgeist” já foi usado para dar nome a movimentos mundias, filmes e outras obras de arte e, inclusivamente, fazer publicidade a máquinas de café repletas de modernidade. Zeitgeist resume, numa única palavra, o clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo. Em 2011, o “zeitgeist” foi transversal. Em 2011, como nunca, o povo deste planeta azul começou a unir-se e juntos começaram a perceber que, igualmente juntos, podiam de facto fazer a diferença.

Manifestações e protestos globais anunciaram um estado de emergência global, uma necessidade imperiosa de combater a sentença de George Orwell e a tendência natural que o poder tem para a corrupção. Os mais variados poderes atingiram limites de ganância que fizeram disparar a indignação colectiva. O povo está cansado e começou a perceber que pode mesmo unir-se para, quem sabe, vir a fazer a diferença. A evidência do que nos rodeia levou a que os comentadores profissionais deixassem de ser os únicos a falar em público. Este foi o ano dos megafones, das faixas com palavras de ordem, das redes sociais como ambiente catalizador de protestos e unificador de idéias e vontades. 2011 foi o ano em que mais pessoas descobriram o aspecto libertador subjacente ao dito estado de indignação. O sonho ingénuo que deseja o fim de um mundo capitalista nunca pareceu tão possível e, de forma mais ou menos eficaz e consistente, movimentou milhões por todo o mundo.

A revista TIME escolhe anualmente a figura do ano, a pessoa que mais se destaca ou que de alguma forma mais influencia o mundo num determinado ano. A escolha da figura de 2011 surpreendeu tudo e todos e recaiu sobre a figura do manifestante anónimo. Homens e mulheres que, por todo o mundo, decidiram arregaçar as mangas para tentar mudar a nossa história contemporânea. São homens e mulheres que compreendem que é sobre nós, os que hoje vivemos, que recai a obrigação de preparar um futuro melhor e mais justo.

2011 foi um ano inspirador, um ano em que o povo percebeu que pode chegar a ter nas suas mãos um poder superior ao que julgava. Numa necessidade desesperada de fiscalizar e reprovar a escolha de determinadas políticas, estratégias económicas e interesses mais obscuros, numa tentativa de exaltação do poder da democracia, o povo começou a perceber que pode mesmo fazer a diferença. Activistas pacíficos, com idéias revolucionárias, sem pensamento unificado mas com a indignação como factor de simpatia, encontraram na união um instrumento para não sofrerem sozinhos. Os movimentos sociais multiplicaram-se e 2012 promete não ser um ano de retrocesso. O povo aguenta mas, quando se cansa, tem uma tendência natural para a cegueira. O desespero faz-nos disparar em todas as direcções. Quando o desespero é total o descontrolo instala-se. É preciso que quem manda esteja vigilante e rapidamente dê sinais que denotem ter percebido a mensagem. O povo descobriu como traduzir a sua união em força de mudança, mesmo que seja uma mudança para “sabe-se lá o quê”...

“Algo está a nascer, ainda que não saibamos exactamente o quê...”


ILC contra AO

Luis de Matos - Thursday, December 15, 2011 - Comments (5)

Uma ILC é uma figura prevista no regulamento da Assembleia da República mediante a qual um grupo de cidadãos pode submeter um Projecto de Lei à votação em plenário. Por outro lado, AO é, para alguns, a sigla pela qual se conhece o “Acordo Ortográfico” e, para outros, as iniciais de adjectivos como “Anormal” e “Obtuso”, que bem descrevem o referido e suposto acordo.

Na história do nosso país, nunca nenhum grupo de cidadãos alheios a quaisquer partidos, organizações, ordens ou tendências políticas, fez uso da prorrogativa legislativa a que tem direito. No caso presente, esta ILC visa revogar a resolução que implementa o Acordo Ortográfico em Portugal. A suspensão do AO pretende criar condições para que efectivamente se averigue a necessidade de um acordo ou, no mínimo, para que se corrijam as graves deficiências que unanimemente se lhe reconhecem.

No meu círculo de amigos, nove em cada dez pessoas consideram o Acordo Ortográfico um verdadeiro hino à patetice e à subserviência saloia. Na internet multiplicam-se os grupos de indignados com a implementação de uma resolução que não traduz qualquer acordo e muito menos tem uma motivação ortográfica, um dos quais com quase 150.000 cidadãos. A ILC é a única forma de eficazmente fazer ouvir a nossa voz. Para tal são necessárias 35.000 assinaturas em papel. O número de assinaturas está próximo de conseguir-se mas é muito importante que seja largamente ultrapassado para que, para além de conseguirmos parar com a implementação da verdadeira aberração que é o AO, consigamos igualmente demonstrar a quem manda que não podem fazer tudo o que lhes apetece quando, dando jeito a alguns, prejudica e vai contra a opinião da grande maioria.

Até hoje, não houve um único argumento dos defensores do AO que resistisse à mais inocente e humilde das argumentações. Porquê? Porque, por muito criativos que sejamos, é sempre extremamente difícil defender o indefensável. Porquê? Porque a evolução da língua faz-se com a passagem do tempo, com a intervenção dos falantes e não por acordo. Porquê? Porque a nossa língua não pode estar à mercê de políticos que, mesmo sem a dominar grandemente, decidem penhorá-la vendendo a nossa alma ao Brasil de Lula e aos interesses geopolíticos de alguns. Porquê? Porque nada podemos fazer às fotocópias mal tiradas e cujo pormenor se perde no próprio processo, mas sim podemos evitar convertê-las em norma e destruir o original.

Não podemos resignar-nos ao AO. É preciso dizer não ao português do Brasil e defender o português de Portugal. Uma língua não evolui por imposição. Uma língua não pode servir agendas pessoais. A ILC não é apenas uma forma de parar o grande disparate do suposto Acordo supostamente Ortográfico. A ILC é igualmente uma forma de fazer saber a quem manda que nós por cá estamos atentos. É fácil, basta visitar o site http://ilcao.cedilha.net/ , ou seguir o código abaixo reproduzido, imprimir o documento que aí se disponibiliza, assinar e enviar pelo correio. Não temos que ser eternos conformados. Podemos fazer a diferença. Está na altura de assegurar às próximas gerações aquilo que os nossos antepassados garantiram para nós... a Língua Portuguesa.

“A língua é um património que não pode ser alienado por um grupo de iluminados...”

Segredos

Luis de Matos - Thursday, December 08, 2011 - Comments (1)

Quase tudo aquilo que é segredo para uns é bem conhecido de outros. Segredos de família, segredos de amigos, segredos profissionais ou segredos de estado são quase sempre partilhados por um grupo mais ou menos restrito. E aqueles segredos que nunca teríamos coragem de partilhar com ninguém? Segredos que nos atormentam por não os podermos libertar, segredos absolutamente desinteressantes e insignificantes mas cujo estatuto de segredo lhes confere uma importância que nem sequer merecem. O que fazer com esses?

Finalmente temos à nossa disposição um processo que permite não ter que carregar connosco informação que não temos coragem de partilhar com os mais próximos mas cuja pressão da sua presença na nossa consciência seria bom aliviar. Falo-vos de um verdadeiro confessionário dos tempos modernos, sem julgamentos ou sermões associados.

PostSecret é um projecto artístico à escala global, criado por Frank Warren, através do qual todos podemos, anonimamente, ver-nos livres de alguns segredos. Sem quaisquer restrições, somos convidados a fazer um postal caseiro onde, escrevendo, pintando, cortando ou colando, possamos retratar o segredo que gostaríamos de partilhar. Tudo é feito anonimamente na internet. O resultado é tão surpreendente que já vários livros se publicaram com os conteúdos enviados e várias exposições itineraram por grandes museus de arte contemporânea espalhados um pouco por todo o mundo.

Tudo se encontra no postsecret.com. O rapaz que usa soutien sem que ninguém saiba ou a pessoa que foi diagnosticada com HIV e guarda disso segredo. Tudo por lá se pode encontrar. Desde exemplos de conduta sexual duvidosa até actividades criminosas, de confissões de desejos secretos a hábitos embaraçosos, e, claro, milhares de outros que simplesmente revelam esperanças e sonhos secretos por concretizar.

Uma única restrição é feita sobre o conteúdo do segredo… ser totalmente verdadeiro e nunca antes ter sido revelado. Frank Warren afirma que os reveladores “cartões postais” têm poderes terapêuticos para quem os escreve e são inspiradores para aqueles que os lêem, dando-lhes não só a oportunidade de se identificarem com o segredo de alguém, e assim acabarem por integrar uma comunidade anónima de aceitação, mas, sobretudo, acabarem por se sentir menos “estranhos”.

“Uma boa solução para as coisas que não podemos contar a ninguém…”

Chaos

Luis de Matos - Wednesday, November 30, 2011 - Comments (1)

Alguma vez parou para pensar no infinito número de coincidências, probabilidades e mutações evolucionistas que foram necessárias para que cada um de nós tivesse chegado até aqui? Que estivesse, neste instante, a ler estas palavras? O corpo humano desenvolveu-se, quem sabe, a partir de um caldeirão de química aleatória que começou com o big bang. É como cozinhar uma refeição em que o tempo de cozedura é de 4,54 biliões de anos. E isso é apenas a idade da Terra. O dia em que a “panela foi colocada ao lume”, a idade do Universo, ninguém sabe.

Nos últimos dois anos tenho vindo a conceber, desenhar e construir o meu novo espectáculo. Quando escolhi a temática e decidi o seu nome, CHAOS, estava longe de imaginar que viria a estreá-lo no pleno caos que hoje vivemos. Mas como disse Saramago, o caos é apenas uma ordem por decifrar…

Uma das mais famosas descobertas da ciência moderna foi feita por um cientista que tentava descobrir um método que permitisse fazer previsões meteorológicas. Aconteceu em 1961. Chamava-se Edward Lorenz e usava um computador para, a partir da extrapolação de um determinado conjunto de variáveis, prever o tempo. Os dados eram introduzidos na máquina e esta fornecia uma previsão. A história não nos diz se as suas previsões eram ou não correctas, o que, neste caso, é absolutamente irrelevante. O que, sim, importa é que, quando no dia seguinte, voltava a introduzir aquilo que achava serem os mesmos valores para cada uma das variáveis, os resultados eram completamente diferentes.

Ao reconfirmar os dados introduzidos descobriu que, para ganhar tempo, tinha utilizado valores com 3 casas decimais apenas. Na verdade, os números originais estendiam-se até às seis casas decimais. O número que introduzira foi 0,506 quando deveria ter sido 0,506127. A diferença era infinitesimal. Tão pequena que a havia desprezado no arredondamento. No entanto, esta aparentemente insignificante diferença produziu um resultado incrivelmente diferente. Este foi o início daquilo que hoje conhecemos como “TEORIA DO CAOS”. Edward Lorenz chamou-lhe “Efeito Borboleta”… Poderá o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadear um tornado no Texas?...

Na verdade, podemos aplicar a teoria do caos a quase tudo nas nossas vidas. O que fazemos hoje afecta o que acontecerá amanhã. O beijo que damos pela manhã… O sorriso que partilhamos com alguém… O caminho que tomamos para ir para o trabalho… O jornal que compramos… O regime alimentar que escolhemos… Ou o partido em que votamos…

Cada decisão que tomamos muda, de facto, o mundo que nos rodeia. Por isso, gostava muito que decidissem vir ao Casino Estoril assistir ao meu novo espectáculo durante todo o mês de Dezembro, já a partir do próximo dia 3. Estas palavras são, em si mesmas, um teste ao efeito borboleta!

“Caos, e outras teorias e impossibilidades, para ver ao vivo e em directo…”

Culpas e Culpados

Luis de Matos - Thursday, November 24, 2011 - Comments (0)

Tal como em cada adepto de futebol existe um treinador de bancada, também em cada cidadão existe um juíz que profere sentenças à mesa de café. As notícias que diariamente nos deixam de sobrolho levantado e testa franzida, onde a indignação é o único escape, fazem com que inevitavelmente queiramos ver atrás das grades algumas pessoas que, a confirmarem-se as suspeitas ou documentadas as evidências, lá deveriam passar o resto dos seus dias. A reflexão que hoje faço é a de um cidadão que, sem qualquer conhecimento de leis, apenas exercita o mais puro senso comum, recusando-se a aceitar que determinadas pessoas possam tudo fazer sem que nada lhes aconteça.

Num estado de direito, do simples indivíduo à potência pública, todos estão submetidos ao respeito das leis que, por definição, devem ser iguais para todos. É fácil de entender, e legítimo de esperar que, até os mandatários políticos sejam submissos às leis promulgadas. É por isso que nunca entendi a imunidade parlamentar. Igualmente não entendo que, quem em cargos públicos comete verdadeiras atrocidades, e nem sempre por negligência apenas, não sofra qualquer tipo de castigo pelos danos operados à sociedade em geral e ao erário público em particular.

Confesso que já não me impressiono com os políticos que são sempre “quase presos” ou os outros que o estado português não entrega ao país irmão. A notícia que mais me revoltou esta semana foi a do Sr. Dr. Ricardo Cunha e a acusação que sobre ele recaiu por crimes de peculato e falsificação de documentos durante o exercício de funções no Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Meus amigos, isto é demais!

O STJ é o órgão superior da hierarquia dos tribunais judiciais de Portugal. Cabe ao Digníssimo Presidente do STJ exercer os poderes administrativos e financeiros idênticos aos que integram a competência ministerial. O conselho administrativo do STJ é o órgão deliberativo em matéria de gestão financeira e patrimonial, sendo composto, entre outro membros, pelo Presidente do STJ e um administrador. Ora, esse administrador chama-se Ricardo Cunha e sobre ele recai agora uma longa acusação, onde se inclui o crime de peculato e 21 crimes de falsificação de documentos, em que se apura um roubo global de 344.299 euros.

Aparentemente, as obras de arte que comprou para mais dignidade dar ao Supremo Tribunal acabariam a decorar a sua casa. Será que o crime cometido teria a mesma relevância se protagonizado por um suposto pedreiro que tivesse ido rebocar os tectos da sala de audiências? Acho que não. Entendo que a sanção deve subjectivamente corresponder à culpa intrínseca da pessoa que pratica o crime. Diferentes autores de um mesmo facto ilícito têm necessariamente que ter penas diferentes em função do contexto e da sua responsabilidade perante a sociedade. É assim nos homicídios. Em todos eles A mata B, porém, as culpas e respectivas sanções podem ir de 12 a 25 anos de prisão no homicídio qualificado ou ficar-se pelos 5 se, por exemplo, tiver sido praticado por negligência num acidente de viação.

Em função do seu estatuto as pessoas deveriam ser mais ou menos sancionadas. Titulares de cargos públicos deveriam ter penas mais pesadas e menos imunidades de conveniência. Por exemplo, um juíz que cometa um facto ilícito deveria ser mais sancionado que um cidadão comum que faça o mesmo. Ele tem mais conhecimento e maior obrigação de conformar a sua actividade de acordo com a lei. Cá estaremos para ver se o Sr. Dr. Ricardo Cunha, enquanto administrador do STJ, roubou mesmo tudo aquilo que se julga e, caso assim seja, o que será que lhe vai acontecer…

“A sanção tem que corresponder à culpa intrínseca do autor do acto…”

Facebook

Luis de Matos - Thursday, November 17, 2011 - Comments (0)

Imaginemos o novo café da moda que abre na cidade... Os grupos de amigos criam novos hábitos e passam a encontrar-se nesse novo espaço, conhecem novos amigos, partilham experiências e vivem outras novas. Mostram as suas fotografias, comentam um artigo de jornal, discutem idéias e perseguem novas causas. Imaginemos a mesma realidade mas à escala global. Imaginemos que, em vez de mostrar as nossas fotografias, distribuíamos cópias a todos os presentes e àqueles que até ao final dos nossos dias por lá passarão. Imaginemos que tudo aquilo que dizemos em ambiente de mesa de café ficará para todo o sempre eternizado de forma escrita e absolutamente indelével. Imaginemos que o “dono do café” tem tudo gravado, sabe tudo sobre os nossos gostos e debilidades, sonhos e frustrações e que sem sequer tenha que nos dar conhecimento, pode vender essa informação a quem quer que esteja interessado, quaisquer que sejam as suas intenções. Imaginemos que nesse dito “café da moda” todos trazíamos escrito na testa o nosso endereço, de casa e trabalho, telefone e email, permitindo a qualquer outro cliente do bar saber rigorosamente onde encontrar-nos. Não é necessário continuar a imaginar o que já existe, chama-se Facebook.

Na verdade, o Facebook é aquilo que cada um quiser para si. Sou admirador e utilizador da rede social e agradeço o facto de me permitir estar mais ligado ao mundo e a todos aqueles a quem o meu trabalho interessa. Como em tudo, existem limites que se ultrapassam e o bom senso nem sempre é mantido. Exactamente como no tal “café da moda” mas numa escala nunca antes observada. O Facebook, empresa privada, reuniu por doação voluntária a maior base de dados do mundo.

O Austríaco Max Schrems, estudante de Direito com 24 anos de idade, pode ser apenas um dos 800 milhões de utilizadores da rede social Facebook, mas isso não o impediu de importunar e vigorosamente questionar o gigante Americano a propósito da privacidade dos seus dados. Max não sabia o que esperar quando contactou a empresa de Mark Zuckerberg pedindo que lhe fosse fornecido o registo de todos os seus dados pessoais; contudo, receber 1222 páginas de informação estava certamente para lá daquilo que poderia, sequer, imaginar. As páginas incluíam fotos, comentários e mensagens há muito por ele apagadas. Nada se apaga do Facebook, apenas se esconde de nós próprios. Max Schrems decidiu agir sob a convicção de que tal funcionamento infringe as leis da União Europeia. Depois de nada conseguir no seu país, Schrems levou a questão ao “Data Proteccion Commisioner”, com sede na Irlanda, onde o Facebook tem a sua sede europeia. A luta continua e todos podem participar, basta visitar o site http://europe-v-facebook.org/.

Mas, em matéria de excentricidades, o Facebook tem-nos oferecido belas pérolas… A americana de trinta anos que incendiou a casa da amiga por esta a ter eliminado da sua lista de amigos… O suspeito ilibado por ter colocado um post à hora exacta do assalto que afirmava não ter cometido… ou a esposa que soube que o seu marido se ia divorciar quando leu o que este escrevera no seu mural!

“A invenção de que não podemos privar-nos mas precisamos entender…”

Pais e Sociedade

Luis de Matos - Thursday, November 10, 2011 - Comments (2)

O mediatizado caso da menina Safira e dos pais que enfrentaram o IPO por preferirem tratamentos alternativos aos que eram sugeridos para a sua filha, e ainda o polémico vídeo do Juíz William Adams a bater na filha com um cinto durante sete longos minutos, que esta semana chegou ao Youtube pela mão da própria filha, hoje com 23 anos, e que já atinge os 6 milhões de visualizações, levam-me a reflectir sobre filhos, pais, sociedade e Estado.

Em 1959, representantes de centenas de países do mundo inteiro aprovaram a Declaração dos Direitos da Criança durante uma assembleia geral das Nações Unidas. Trata-se de uma adaptação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, porém, voltada para as crianças. Do seu enunciado consta a seguinte ideia: “Todas as crianças devem ser protegidas pela família, pela sociedade e pelo Estado, para que possam desenvolver-se física e intelectualmente.”

Sendo certo e desejável que todas as crianças devam ser protegidas pela família, pela sociedade e pelo Estado, qual das três entidades deve ter a palavra final no caso de estas terem opiniões diferentes sobre a melhor forma de exercer essa obrigação e proporcionar o referido direito? Onde acaba a responsabilidade dos pais e começa a da sociedade e a do Estado? Estará uma criança condenada a sofrer as consequências, por vezes irreversíveis, das decisões estúpidas dos pais que lhes calharam? Deverá uma criança estar sujeita à influência de uma sociedade sem valores e sofrer com as leis generalistas de um Estado cego, mesmo quando os pais sabem qual o caminho certo? Não haverá nunca respostas simples e definitivas para perguntas como estas. Cada caso é um caso e quanto mais próximos nos são mais difícil é a nossa objectividade.

Não entrarei em especulações a propósito de nenhum dos dois casos reais que antes referi, por achar que nunca sabemos o suficiente para podermos permitir-nos arriscar opiniões sentenciais e, quase sempre, contaminadas de certezas e radicalismo. Além disso, não sou pai. Ainda que ache que talvez essa condição me confira a equidistância que qualquer reflexão honesta deveria supor.

As opiniões dividem-se quando se fala em castigar fisicamente os filhos. Nunca entendi os pais que se gabam de nunca ou sempre baterem nos seus filhos. Por que razão deveria uma ou outra realidade ser motivo de bajulação? Tornou-se socialmente inaceitável assumir certos castigos. Por mim, resta-me publicamente agradecer aos meus pais por terem sabido proteger-me e ensinado a distinguir o bem e o mal. E sim, apanhei umas quantas sovas. E depois? Aqui estou eu profundamente agradecido.

“Pais, filhos, sociedade, Estado… um equilíbrio nem sempre equilibrado…”