Ilhas falsas

Luis de Matos - Thursday, November 03, 2011 - Comments (2)

Numa audaz tentativa de redesenhar o planeta, o governo do Dubai iniciou em 2003 a construção de um novo mundo, ou pelo menos, parte dele. Chama-se “The World” e é uma colecção de ilhas artificiais, num arranjo que simula os cinco continentes, situadas na costa do Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. No total são 300 pequenas ilhas privadas divididas em diversas categorias, seja pelo preço ou pelas funções a que se destinam.

A área das ilhas que compõem este arquipélago artificial, separadas entre si por uma distância média de 100 metros, varia entre 14.000 e 42.000 metros quadrados. Na sua construção foram utilizados 321 milhões de metros cúbicos de areia e 31 milhões de toneladas de pedra. No total foi criada, do zero absoluto, uma distância de costa superior a 230 quilómetros.

Mas a audácia dos dirigentes do Dubai não se fica por aqui. Depois de sonharem e terem feito acontecer o “The World”, está já planeado e projectado o “The Universe”. Trata-se igualmente de um arquipélago artificial, desta vez gigantesto, que inclui o “The World”, e que, visto do céu, tem uma forma semelhante à da via láctea e do sistema solar em todo o seu esplendor. Anuncia-se que esteja concluído entre 2023 e 2028.

Quando está na moda falar-se da pegada humana no planeta, eis senão quando, o impensável se torna realidade. Quando diariamente nos chamam à atenção para o facto de que quando comemos um ovo, não estamos apenas a comer um ovo e que deveríamos ter em conta que também somos responsáveis por todos os recursos naturais que foram usados para que o ovo cozinhado chegasse até nós, perguntamo-nos o que deveria ser dito na extravagante circunstância do Dubai. O que será mais importante? O facto de comermos entre 10 e 20 mil ovos ao longo das nossas vidas ou o facto de permanentemente tentarmos enganar a natureza?

O “The World” pode até ser um destino único, um paraíso feito realidade. Mas quantas vezes será necessário que a natureza nos relembre que não devemos fazer batota? Há muitos anos li um artigo em que o seu autor comparava a nossa existência no planeta à de uma tripulação que ainda não havia encontrado o livro de instruções para a nave espacial que estava a conduzir. Mais vezes do que aquelas que quereria me recordo de tal metáfora. Dói perceber que, se os recursos globais do planeta fossem distribuídos por todos os que por cá andamos, este mundo seria certamente um mundo melhor.

Mas atenção, ainda em relação ao “The World”, já algumas vozes se levantam dizendo que as jubilantes ilhas estão a afundar-se...

“No Dubai talvez o céu seja o limite, o mar não é com certeza…”

Ilusão que cura

Luis de Matos - Thursday, October 27, 2011 - Comments (1)

Todos conhecemos a técnica dos comprimidos de farinha que, nas circunstâncias correctas, fazem milagres. Placebo é o nome dado a um fármaco ou procedimento cujos efeitos terapêuticos se devem aos efeitos fisiológicos da convicção do paciente que acredita estar a ser tratado. É um truque absolutamente extraordinário que leva o nosso cérebro a fazer com que algo, cujo valor terapêutico é zero, nos faça, de facto, sentir melhor. Basicamente, o placebo reduz a ansiedade do paciente, invertendo assim uma série de respostas orgânicas que dificultam a cura espontânea.

Na prática, não há dúvida que nos sentiremos melhor se verdadeiramente acreditarmos que essa é a função específica de um tratamento. O poder associado pelo paciente a determinado placebo pode até chegar a criar dependência do mesmo. O efeito placebo pode ser tão forte e eficaz que, há mesmo uma corrente de opinião que defende a sua irradicação do desporto de alta competição.

Académicos da Universidade de Nottingham descobriram, acidentalmente, que uma determinada ilusão podia reduzir significativamente, ou mesmo irradicar de forma temporária a dor da artrite na mão. A ilusão consiste em o doente ver os seus dedos a serem esticados ou encolhidos sem quem sinta qualquer tipo de dor.

A máquina desenvolvida e utilizada nesta pesquisa filma a imagem da mão do doente, processa-a no sentido de parecer que algo está a acontecer, por exemplo, a um dedo e re-envia simultaneamente esse sinal de vídeo para aquilo que parece apenas ser um vidro que separa o olhar do paciente da sua respectiva mão. Na verdade, o aparente vidro integra um complexo sistema de espelhos que faz com que a ilusão seja perfeita e o “truque” indetectável. O doente vê, de facto, e sem dor, o seu dedo a ser esticado e encolhido. Algo que, na sua condição nunca suspeitaria ser sequer possível.

Os resultados do estudo foram surpreendentes, tendo os pesquisadores sido capazes de reduzir para metade a dor sentida por oitenta e cinco por cento dos doentes que testaram. A equipa de investigação da Universidade de Nottingham acredita que esta experiência pode abrir novos caminhos na redução da dor que determinados pacientes sentem ao submeterem--se a fisioterapia.

Já todos experimentámos a forma como o cérebro processa determinado tipo de informação e como esta se relaciona com a dor que sentimos. Quantas vezes nos cortámos e só sentimos o quanto dói depois de ver o sangue à flor da pele. Num mundo onde o desenvolvimento tecnológico é tão veloz, continua a ser surpreendente verificar como a nossa condição pode ser tão susceptícel a uma simples ilusão.

“Já a minha avó dizia… a boa fé nos salve!”

(R)evolução Global

Luis de Matos - Thursday, October 20, 2011 - Comments (0)

No passado dia 15 de Outubro milhões de pessoas, em 951 cidades de 82 países, uniram-se num protesto global que reclama uma democracia real e participada. Pela primeira vez, cidadãos do mundo inteiro puderam, mutuamente e em simultâneo, rever-se nas acções daqueles que noutras paragens, no mesmo dia e à mesma hora, lutavam com a mesma força, o mesmo objectivo e, acima de tudo, a mesma indignação. A onda “15 de Outubro” veio abrir a caixa de Pandora ao traduzir numa simples percentagem uma realidade de que nunca se fala muito: 99% ! Grosso modo, este valor representa o número de indignados por comparação ao conjunto de indivíduos que tomam decisões em nome do povo.

Não é preciso ser um génio para perceber que o mundo está a mudar. Sempre esteve. Só que agora muda mais rápido. As ferramentas da modernidade, as novas armas do povo, fazem-nos estar mais perto de um grupo de manifestantes em Tóquio do que dos vizinhos do prédio em que vivemos. Ajudam-nos a encontrar no mundo aqueles que pensam como nós. Que a união faz a força, ninguém questiona. Hoje, ela é possível de forma mais rápida, mais simples e mais eficaz.

O protesto global do dia 15 de Outubro anunciava-se como apartidário, laico e pacífico. Salvo algumas excepções, o anúncio cumpriu-se. Unidos por uma mudança global, milhões de pessoas em todo o mundo decidiram que estavam cansados de apenas serem ouvidos de 4 em 4 anos, quando votam em alguém que rapidamente se esquece da real origem do seu poder e do verdadeiro propósito da sua eleição. O povo reclama justiça e transparência nas decisões políticas. O povo está cansado de corrupção, interesses e mentiras daqueles que desenfreadamente lutam pelo poder e pelo lucro. O descontentamento e o desespero do povo, combinados com o “momentum” global, podem ser incontroláveis e explosivos.

A contribuição portuguesa na revolta mundial do “15 de Outubro” traduziu-se em 30 movimentos de cidadãos em 9 cidades de Portugal. O povo começa agora a dar expressão à indignação que há muito sente. Quando vemos notícias como as que anunciam milhões de euros gastos em telemóveis e em carros para directores e administradores públicos, perguntamo-nos como é possível que as cadeias não estejam cheias de pessoas importantes. O sistema protege-se a si próprio e é urgente quebrar o “status quo”. Não podemos continuar sem dinheiro para um Serviço Nacional de Saúde fiel à sua criação quando os que decidem, esbanjam recursos em despesas de representação.

É perfeitamente entendível que, pessoas com responsabilidades públicas cometam erros. O que não é normal é que, sob uma impunidade que não se entende ou justifica, continuem a não ser responsabilizados pelos actos que, praticados consciente e levianamente, atentam contra a justiça social. Esta semana celebra-se o “Dia Internacional para a Irradicação da Pobreza”. Em Portugal, uma em cada cinco pessoas é pobre. O desespero é crescente. Sente-se no dia-a-dia um brutal decréscimo de tolerância de todos para com todos. As pessoas estão cansadas, indignadas e desesperadas.

“Senhores políticos… o povo precisa de sinais…"

Steve Jobs

Luis de Matos - Thursday, October 13, 2011 - Comments (1)

O meu primeiro encontro com um computador portátil Apple aconteceu em 1991, muito antes de saber o nome do génio que seria responsável por vinte anos sem vírus informáticos ou problemas que podem apenas fingir resolver-se com um “restart”.

Steve Jobs, o fundador da Apple, partiu aos 56 anos. A sua obra e o seu exemplo viverão para sempre. O seu génio demonstrou que é possível pensar diferente. Demonstrou que a fé move montanhas. A fé numa visão pela qual lutou com genialidade, teimosia e tenacidade. Um caminho que não foi fácil e em que o número de detractores apenas foi servindo como indicador positivo da sua genialidade.

Steve Jobs foi um visionário. Viu o que outros não conseguiam sequer imaginar. Com brilho, paixão e energia, definiu a era digital e melhorou as nossas vidas pessoais e profissionais. Salvou e revolucionou o mundo da música com o iTunes, influenciou a sétima arte com a Pixar, reinventou as comunicações móveis com o iPhone, democratizou o software com a App Store, fez-nos reconhecer a imprescindibilidade de objectos que ontem desconhecíamos. Tudo isto depois de ter inventado os computadores pessoais e de os transformar numa força de mudança social e económica.

O falecimento de um grande líder mundial ou de um qualquer ícone da música internacional não é sequer comparável ao luto global sentido na sua partida. Steve Jobs parte quando todos sentíamos que o seu trabalho ainda só ia a meio. Ainda assim, Steven Paul Jobs, nascido em São Francisco a 24 de Fevereiro de 1955, fez do nosso mundo um mundo melhor. O legado do menino adoptado por Paul e Clara Jobs é incalculável e indelével.

A transformação cultural e tecnológica por si desencadeadas são consistentes, inovadoras e profundamente estéticas. Steve Jobs deixou-nos os auscultadores brancos que são usados pelos skaters e pelos corretores da bolsa, os iPads que vemos nas mãos dos pivots de televisão e com que brincam as nossas crianças. Não mudou apenas a forma como as pessoas se comunicam, vêem filmes, ouvem música ou fazem compras na Internet; Steve Jobs tornou mais fácil e criativa a vida de todos nós.

Steve Jobs abandonou a faculdade aos 18 anos de idade, fundou a Apple aos 21 na garagem dos seus pais e era multi-milionário aos 25. Nunca parou. Pensar nele faz-nos querer não sucumbir às dificuldades. Revisitar a sua alocução aos recém graduados da Universidade de Stanford em 2005, dá-nos força e inspira-nos. Como disse António Vilhena a propósito da morte de Steve Jobs, “Há sempre uma outra vida, com as vidas daqueles que nos deixam a pensar.”

O mundo chora um dos mais geniais, visionários e influentes pensadores…”

Impunidade pública

Luis de Matos - Thursday, October 06, 2011 - Comments (1)

Todos sabemos como é bom viver numa sociedade onde liberdades, direitos e garantias são herdadas sem aparente dor ou trabalhos forçados. Falo daqueles que, como eu, já nasceram num Portugal livre e democrático. Talvez por isso, ao não termos tido que lutar por elas, muitas coisas não nos indignem. Mesmo assim, há limites. Limites que, uma vez atingidos, nos enchem de revolta. Limites que quem tem responsabilidades públicas não deveria sequer conceber ou tolerar e muito menos ousar ultrapassar.

Sabemos que, se não pagarmos os nossos impostos, sofremos as consequências que se convencionaram. Ao mesmo tempo, assistimos a detentores de cargos públicos serem impunes protagonistas das mais atrozes vigarices e roubos ao herário público. É assim num estado de leis suaves e de outras que só se cumprem para alguns. Sorrimos ou encolhemos os ombros quando lemos e ouvimos histórias sobre aqueles que, apesar de terem chegado a cargos importantes, nunca deixaram de ser chicos espertos com coluna vertebral gelatinosa.

Infelizmente é assim, dia sim, dia não. Depois vêm as eleições, pedem que votem neles e nós votamos. Não importa se roubaram ou foram condenados, não importa se fugiram para outras bandas para que a polícia não lhes possa deitar a mão. Nenhum perde o sorriso público ou o discurso honesto que tresanda a mentira. São mercenários vestidos de anjo e fazem-se acompanhar do salvo-conduto que o nosso “encolher de ombros” lhes confere.

Provavelmente teremos todos que abdicar de algumas garantias para sonhar que o combate à corrupção possa, quem sabe, fazer-se com alguma eficácia. Já percebemos que não vamos lá com retórica ou com a ingénua esperança de que quem manda seja honesto por definição ou inerência do cargo. A dívida da Madeira é paradigmática. Um exemplo de que não importa a dimensão da aberração, sempre haverá quem a entenda ou tente justificar sem qualquer receio de ouvir alguém a gritar “o Rei vai nu!”.

E nós cá continuamos… vemos os telejornais como se de histórias de ficção se tratem, enredos de série de televisão que fala de um país distante num qualquer planeta imaginário. O nosso subconsciente não aceita que certas personagens existam de verdade e, automaticamente, pensa que certos protagonistas são simplesmente, na vida real, actores honestos que, de tão talentosas que são, parecem existir de verdade.

“Os maus da fita não são actores… existem e têm que ser punidos!…” 

Rituais Sociais

Luis de Matos - Thursday, September 29, 2011 - Comments (1)

Esta semana participei pela primeira vez numa entronização solene. Quem hoje vos escreve é o “Grande Confrade de Honra” da Confraria da Cerveja. Mais do que partilhar convosco essa minha nova condição de forma pedante e pretenciosa, quero apenas falar-vos do que vivi nessa tarde e do principal prazer que, sem esperar, acabaria por sentir.

Numa sociedade onde o significado do verbo “socializar” muda diariamente em função dos novos hábitos através dos quais interagimos, é bom voltar a sentir o prazer de encontrar e conversar com pessoas de carne e osso. A internet veio potenciar e aumentar as formas como socializamos mas também impôs uma norma que veio tornar-nos mais preguiçosos. Hoje em dia viajamos pelo mundo sem sair de casa. Isso é verdadeiramente notável se, apesar de tudo, continuarmos a sair de casa.

No decorrer da entronização de que vos falo, a 9ª da Confraria da Cerveja, fiquei particularmente impressionado por ver pessoas e empresas cuja história de relacionamento se pauta por visceral competitividade e, ainda assim, unidos em torno de uma celebração. Enquanto assistia à entrada de outros novos membros, tive a grata oportunidade de trocar impressões com o Prof. Marçal Grilo e o Eng. Carlos Moedas. As sucessivas promessas de “promover e prestigiar  a cerveja” poderiam, assim descritas, chegar a ter um tom caricato, porém, a dignidade e o espírito vividos no decorrer da cerimónia tornaram o momento simbólico e absolutamente memorável. Testemunhar a forma como figuras de proa da nossa sociedade e altos cargos da nação e vida pública nacional se uniram, desprovidos de qualquer preconceito, em torno de uma ideia comum foi verdadeiramente inspirador.

A capacidade humana de nos associarmos, interagirmos e partilharmos as nossas ideias na persecussão de novas e melhores formas de interpretarmos e construírmos o que nos rodeia é algo a que devemos dedicar mais atenção e energia. A mudança é possível e permanentemente necessária, só assim se consegue uma evolução positiva.

As confrarias ou irmandades são certamente um caminho de união de ideias. Não mais são unicamente associações religiosas de leigos no catolicismo tradicional que se reuniam para promover um determinado culto. Essas surgiram na Europa na Idade Média. As que hoje nos rodeiam são associações de homens quase livres que se unem para fazer a força, para empurrar as ideias e para construir um amanhã diferente e, se possível, melhor.

Socializar é reunir em sociedade. Socializar é unir esforços em benefício da colectividade. Socializar é explorar identidades e relações num constante impulse de mudança. Viva a “Confraria da Cerveja”, vivam todas as “confrarias” de homens de bem.

“Urge reinventar os mecanismos que nos fazem interagir de verdade… ”

Saudades da Baixa

Luis de Matos - Thursday, September 22, 2011 - Comments (1)

Durante a semana que passou, estive pela baixa de Coimbra de uma maneira em que só por lá estou seis dias por ano. Na terceira semana de cada mês de Setembro, ao longo dos últimos quinze anos, por ocasião dos Encontros Mágicos, passo grande parte da manhã, tarde e noite pelas ruas da baixa de Coimbra. Este ano fiquei preocupado como nunca antes havia acontecido. As lojas fecham, a marginalidade aumenta e a miséria humana começa a ser preocupante, visível e quantificável.

A Baixa de Coimbra precisa da nossa atenção. Corta o coração ver estabelecimentos, que antes conhecíamos como emblemáticos, transformados em cubículos fechados que hoje compram ouro sob a promessa de cobrir a melhor oferta. Dói ver imóveis envoltos em história com aspecto que subentende uma recuperação incomportável para os que os possuem e que se reafirma pela presença de um qualquer “vende-se”. A prostituição e a toxicodependência têm dificuldade em disfarçar-se. As beatas de cigarro não abundam mas apenas porque a maioria já foi coleccionada por quem as reaproveita. Algumas lojas fecham, fogem para os centros comerciais ou simplesmente passam a ter um nome que se escreve com caracteres chineses. Tudo isto desencanta e limitamo-nos a achar que somos impotentes para evitar um futuro que apenas se teme e não se contraria.

Sou dos que pensam que a solução está em todos nós. A Baixa é de todos e não podemos alhear-nos da responsabilidade pelo estado em que se encontra. As lojas fecham porque passámos a comprar online. A marginalidade aumenta porque deixámos de passear nalgumas zonas. É preciso agir.

Cada um de nós conheceu a Baixa de uma maneira diferente. Foi-nos entregue pelos nossos antepassados numa forma tal que por ela nos apaixonámos. Não podemos entregá-la assim ou pior ainda, aos que nos seguirão. Num jardim onde as plantas não se cuidam, as infestantes alastram. Uma árvore que não se poda sempre cresce de forma selvagem. É preciso tomar conta da Baixa. É preciso vivê-la e ocupá-la de experiências que a tornem mais apetecível e não num espaço onde não queremos passear com os nossos filhos.

Durante a semana dos Encontros Mágicos, milhares de pessoas passaram horas nas ruas da Baixa. Famílias inteiras participaram em experiências inesquecíveis, plenas de momentos em que o reencontro com a arte e  com o espaço perdurará nas suas memórias. Obrigado a todos por nos ajudarem a relembrar que a Baixa é Mágica..

“Recuperar e proteger a Baixa de Coimbra é obrigação de todos nós… ”

Encontros Mágicos

Luis de Matos - Thursday, September 15, 2011 - Comments (3)

Já lá vão quase duas décadas em que, ano após ano, Coimbra se converte por uma semana, numa cidade ainda mais mágica. O Festival Internacional de Magia de Coimbra é a mais antiga inciativa realizada em Portugal no âmbito da Arte Mágica e exclusivamente dirigida ao público em geral. Da responsabilidade do pelouro da cultura da Câmara Municipal de Coimbra, nasceu em Julho de 1992 pela mão do mágico conimbricense Hortiny (José Carlos Gomes) e viria a ser retomado em 1998, sem interrupções a partir desse ano, integrado num conceito mais abrangente e que inequivocamente se afirmou sob a designação de Encontros Mágicos.

Os Encontros Mágicos são, assim, uma organização da Câmara Municipal de Coimbra, com o apoio do Teatro Académico de Gil Vicente e a chancela de “superior interesse cultural” do Ministério da Cultura, a única alguma vez atribuída a um festival de magia. A produção e direcção artística é assinada por este V. amigo e sua equipa.

Os Encontros Mágicos são especiais. A arte mágica celebra-se em Coimbra de uma forma absolutamente singular. A magia chega a todas as idades, a todos os estratos sócio-culturais ou económicos. A arte de criar ilusões desafia todos de forma indiferenciada, seja nas ruas, nas praças, nos jardins, no Teatro Académico de Gil Vicente, ou nas visitas ao  Estabelecimento Prisional ou ao Hospital Pediátrico. É assim há anos. Em cada edição o número de espectadores vai subindo. Entre habituais e novos fans, a semana dos Encontros ganha forma nas múltiplas, e por vezes improváveis, experiências de cada um de nós com cada um dos “mestres” que visita Coimbra em cada edição.

Das cinquenta e duas semanas que compõem cada ano, só uma delas é capaz de nos fazer acreditar no impossível. Os truques utilizados por cada mágico nas suas ilusões são, pelos públicos, convertidos em momentos de pura magia onde o único limite é a imaginação de cada um que a ela assiste. É por isso que não podemos deixar escapar esta semana, temos que a viver com a maior intensidade e em toda a sua plenitude. Há muito que se perdeu a noção de “espectáculo familiar”. Essa designação quer dizer quase sempre, hoje em dia pelo menos, espectáculo para crianças acompanhadas por pelo menos um adulto. A semana dos Encontros Mágicos nada tem a ver com isso, ela possibilita uma verdadeira comunhão cultural, plena de experiências, onde todos podem ir, voltar e recordar juntos.

O código que abaixo se reproduz leva-nos à página do Facebook dedicada aos Encontros Mágicos. Fica aqui o desafio, partilhem o V. olhar com todos quantos a visitam. Vamos converter este canto da internet no local onde registamos e partilhamos com o mundo e para futuro, os momentos vividos durante o 15º Festival Internacional de Magia de Coimbra. Vemo- -nos por aí...

 “Desde Julho de 1992, a fazer sonhar centenas de milhares de pessoas… ”

Estaca Zero

Luis de Matos - Thursday, September 08, 2011 - Comments (1)

Apesar de hoje me referir ao que há uma década aconteceu em Nova Iorque, o título “Estaca Zero” não deve confundir-se com a expressão “Ground Zero”. Sinónimo de “marco zero”, a expressão “Ground Zero” utiliza-se para descrever o ponto, à superfície da Terra, mais próximo de uma dada detonação. O termo tem sido muitas vezes associado a explosões nucleares e de outras bombas de grande porte, mas é igualmente usado em relação a terramotos, epidemias e outros desastres, marcando o ponto onde os danos são mais graves ou a destruição maior. Inevitavelmente, é hoje, sobretudo, associado ao local anteriormente ocupado pelas torres do World Trade Center em Nova Iorque.

“Estaca Zero” porque, dez anos depois, pouco mudou relativamente à grande maioria dos aspectos e questões levantadas com o sucedido em Nova Iorque naquela terça-feira, dia 11 de Setembro de 2001. A prová-lo estão os inúmeros relatórios produzidos e as centenas de medidas neles sugeridas e que, até hoje, nunca viram a luz do dia.

“Estaca Zero” porque continua a ser possível explodir aviões. Na verdade, a tecnologia usada no fabrico de bombas evolui mais rapidamente do que a tecnologia usada para a sua detecção. Por um lado, os terroristas só têm que fabricar meia dúzia. Por outro, a segurança dos países não pode mudar constantemente os seus sistemas de prevenção.

“Estaca Zero” porque só agora, depois de centenas de milhões de dólares terem sido gastos,  começam a reconstruir-se as torres que substituirão as gémeas anteriores.

“Estaca Zero” porque o mesmo sistema de comunicação que teria permitido que polícias se comunicassem com bombeiros e restantes equipas de emergência, continua a não existir. O governo americano continua a não estar de acordo em disponibilizar uma subsecção do espectro electromagnético que se destine à comunicação via rádio entre todas as equipas envolvidas numa determinada catástrofe.

“Estaca Zero” porque nunca se soube o que realmente aconteceu… As teorias da conspiração relativamente ao 11 de Setembro são das mais elaboradas e documentadas. Todas alegam que os ataques ocorridos a 11 de setembro de 2001 foram autorizados ou mesmo fruto de uma operação clandestina orquestrada por uma organização com elementos dentro do governo dos Estados Unidos. A teoria da conspiração mais proeminente defende que o colapso do World Trade Center terá sido o resultado de uma demolição controlada ao invés de enfraquecimento estrutural devido ao fogo. Outra crença de destaque é a de que o Pentágono terá sido atingido por um míssil lançado por elementos de dentro do governo dos EUA ou que o avião comercial teria essa mesma função planeada. Os motivos citados pelos teóricos da conspiração incluem a necessidade de justificar as invasões do Afeganistão e do Iraque, bem como os interesses geoestratégicos no Médio Oriente.

É por estas e outras razões que, apesar de volvida uma década, estamos ainda na “Estaca Zero”…

“Centenas de milhões de dólares mais tarde, pouco mudou ou sabemos…”

Relógio do Apocalipse

Luis de Matos - Thursday, September 01, 2011 - Comments (61)

Chama-se “Doomsday Clock” e é um relógio simbólico criado em 1947 nos Estados Unidos por um núcleo de cientistas atómicos da Universidade de Chicago. Quanto mais perto da meia-noite se encontra o ponteiro dos minutos, mais próximo nos encontramos de um desastre global.

Desde a sua criação, a hora marcada pelo relógio foi alterada dezanove vezes. Actualmente, os ponteiros marcam seis minutos para a meia-noite. Foi essa a posição em que a última actualização os deixou a 14 de Janeiro de 2010.

Inicialmente a metáfora gráfica do relógio e o perigo iminente representado através dos seus ponteiros, referia-se à ameaça de uma guerra mundial com recurso a armas nucleares. Desde 2007 que a analogia presente no acerto do relógio passou a ter em conta outras ameaças como as mudanças climáticas e a chamada bio-segurança, ou a falta dela, nomeadamente no que se refere ao desenvolvimento nas ciências da vida. A função do “relógio” é, por assim dizer, converter em algo facilmente interpretável as eventuais consequências de eventos internacionais que representam perigo para a humanidade.

A próximidade do ponteiro dos minutos da meia-noite figurativa deveria servir para refrear e fazer-nos ganhar consciência do perigo iminente, e força destrutiva, à disposição de um conjunto de senhores todo-poderosos. Mas acalmem-se os que podem ser levados a pensar que “é praticamente meia-noite”, só porque o relógio marca 23:54. Ao longo dos últimos sessenta e quatro anos o relógio já simbolizou momentos mais aterrorizadores…

Começou em 1947 indicando vinte e três horas e três minutos. Em 1949 perdemos quatro minutos de esperança com a União Soviética a testar a sua primeira bomba atómica e a corrida ao armamento nuclear que aí se iniciava. A partir dessa altura, seguiram-se mais dezoito acertos de relógio. Umas vezes perderam-se, outras ganharam-se minutos. As últimas cinco vezes em que o relógio se acertou foi sempre para pior, à excepção da última vez. Em 1991 eram 23:43, em 1995 passou para 23:46, em 1998 marcava 23:51, em 2002 lia-se 23:53 e em 2007 os ponteiros assustavam nas 23:55! Mas há que ter esperança… em 2010 o relógio deu-nos mais um minuto de felicidade e passou a marcar 23:54, em consequência da cooperação mundial para a redução de arsenais nucleares e tentativa de redução do efeito da mudança climática.

Pois é, aqui está mais um sinal de que, chegando à meia-noite, talvez nos transformemos mesmo em abóboras…

"Tic… tac… sem ritmo regular ou previsível… a caminho do juízo final!"