Audiências

Luis de Matos - Thursday, March 15, 2012 - Comentários (0)

Todas as actividades desenvolvidas nas mais variadas áreas da sociedade, com intuito comercial ou não, são inevitavelmente monitorizadas no sentido de aferir não só a sua eficácia face aos propósitos que determinam a sua realização, mas também numa lógica de custo benefício. Seja qual for o custo, e qualquer que seja o benefício esperado, é imperioso que exista uma lógica orientadora das linhas estratégicas de acção. A única excepção são mesmo a grande parte das companhias de teatro subsidiadas pelo estado que, mesmo quando ao longo de décadas não conseguem criar públicos e continuam a fazer espectáculos para salas cheias de três ou quatro amigos, continuam protegidas pela capa da suposta cultura de missão. Instituto das Artes à parte, tudo é, naturalmente, avaliado. Os critérios devem ser estabelecidos com grande cuidado e mestria no sentido de não se perderem linhas de serviço público que, independentemente de resultados mais óbvios, são vitais para a saúde de um pais e cujo retorno deve ser medido de forma muito específica, ponderada e contextualizada. No entanto, seja o Serviço Nacional de Saúde ou o desempenho dos professores nas escolas, tem que haver um peso e uma medida, uma referência que permita, da melhor forma, avaliar, distinguir e gerir recursos.

No mundo do audiovisual, é a audimetria que literalmente decide a vida de milhares de pessoas. A juzante e a montante de um simples programa de televisão encontramos uma industria cujo dia de amanhã é literalmente decidido pela suposta quantidade de espectadores num determinado dia e hora. Em 1996, quando vi o meu programa “Noite Mágica” ser distinguido com o troféu “Nova Gente” para “Melhor Programa de Entretenimento”, por votação nacional, falei de audimetria nas minhas palavras de agradecimento. Na altura, há exactamente 16 anos, chamei à atenção para o facto da medição de audiências ser tão importante quão pouco fiável. Valores considerados pela indústria audiovisual como absolutos eram, na prática, o simples resultado da monitorização de umas quantas centenas de lares, em nome de uma comunidade de dez milhões de potenciais espectadores. Passados todos estes anos, vemos hoje na ordem do dia o canal público a, com muita razão, queixar-se da mesma leviandade com que se produzem resultados cuja proximidade com a realidade pode apenas ser anedótica. Refiro-me à instalada polémica da adjudicação desse serviço a uma empresa estrangeira que, alegadamente, era a pior colocada no ranking da competência técnica.

Apenas me ocorre dizer que a RTP, actualmente prejudicada com o novo sistema de audimetria, deveria ser o último canal a ter que preocupar-se com tal facto. A estação pública deveria, de uma vez por todas, ser retirada da patética comparação da sua missão, e respectivos parâmetros de avaliação, que tendem a coloca-la, por defeito, ao nível dos canais privados e de intuito comercial. A RTP deve tentar ser a referencia de qualidade ao nível da forma e dos conteúdos. Sou dos que vão mais longe e defendem mesmo que, à semelhança de grandes estações públicas como a BBC ou a TVE, a RTP não deveria sequer ter publicidade.

“A RTP está preocupada com uma guerra que não devia ser a sua…”

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