Bancos

Luis de Matos - Thursday, April 05, 2012 - Comentários (0)

Há mais de um século, Brecht interrogava-se sobre o que seria pior… roubar um banco ou fundá-lo. A irreverência da sua pergunta não poderia ter maior actualidade. Sob a suposta capa de quem está ali para ajudar, talvez seja mesmo a área de negócio mais perversa e com menos escrúpulos. Diariamente ouvimos pessoas dizerem coisas como “tenho mais medo dos bancos do que dos ladrões”. Habituamo-nos a ver em desabafos como esse uma grande dose de humor e a catalogá-los como simples distorções da realidade feitas pela voz popular. Será assim?

Todos nos queixamos de que o governo protege os bancos em prejuízo dos cidadãos. Os partidos da oposição dizem o mesmo até ao dia em que são governo, voltando apenas a lembrar-se da sua opinião anterior quando deixam ou os arrancam do poder.

Não me chegam os dedos das mãos para apontar os casos que conheço de verdadeira falta de vergonha de alguns balcões quando se trata de cobrar taxas, impingir produtos ou mesmo tentar convencer avaliadores só para que possam despachar mais uns milhares de euros, com o fito exclusivo e cego de cumprir os objectivos do balcão para esse ano, mesmo sabendo que o cliente nunca poderá pagar tal encargo. A última história dessa colecção envolve o famoso cartão Titanium do Banco Santander, onde a protecção ao cliente é totalmente inexistente apesar da publicidade tentadora.

O caso BPN vem dar razão ao povo. Os grandes safam-se sempre. Contudo, nunca lhes chamam ladrões nem os mandam para a prisão. Basicamente, fazem o que querem, roubam em grupo e depois separam-se como nunca se tivessem conhecido antes. O povo grita e o Estado pega no dinheiro de todos nós e paga aos que fazem mais barulho. O esquema parece ser patético mas funciona. No final do dia, os tais senhores que roubaram assistem e comentam com admiração as notícias da tv enquanto degustam uma qualquer delicatessem paga por nós.

Na passada sexta-feira, como habitualmente, rumei a Santiago de Compostela para mais uma participação em directo na Televisión de Galícia. À chegada encontrei polícia e medidas de segurança como nunca em sete anos aí tinha visto. Viria então a perceber que pretendiam proteger-se dos manifestantes que, nesse mesmo dia, haviam tomado os estúdios do Jornal da Tarde lá do sítio. E quem eram? Malfeitores, sindicalistas, trabalhadores precários? Nada disso. Eram pessoas entre os sessenta e os oitenta anos, reformados, sem dinheiro para comer e a quem os bancos acabavam de literalmente roubar todas as suas poupanças de uma vida inteira de árduo trabalho, na maioria dos casos, na agricultura.

Recentemente as famosas “Caixa Nova” e “Caixa Galicia” sofreram um processo de fusão dando origem a um banco convencional mas que escolheu o conveniente nome de “Nova Caixa Galicia”, levando todos a pensar que continuava a ser um “caixa” no verdadeiro sentido da palavra. O natural excesso de directores foi resolvido com acordos milionários. Esses senhores importantes regressaram a suas casas com indemnizações entre nove e catorze milhões de euros. Eu sei que é difícil de acreditar mas, se calhar, eles eram mesmo muito inteligentes, ou, simplesmente, bastante espertos.

Então o que se passou com os clientes assaltados? Chama-se “Participações Preferenciais” e é um produto que tem tudo o que é necessário para que arregalemos o olho e tudo o que é suficiente para não ver o dinheiro nunca mais na vida. Ou, quem sabe, talvez a partir de 2099. O banco oferece uma taxa de 7% de juro a quem adquirir este produto. Nem o cliente ouve mais nada nem o bancário tenta explicar. O que importa é cumprir os objectivos do balcão. Não explicam que a liquidez imediata não é uma opção, não referem que nenhum desses depósitos está coberto pelo fundo de garantia de depósitos e que em caso de falência do banco tudo se perde, muito menos dizem que a única forma de se livrarem do produto é arranjar, por sua conta, quem o compre. Afinal, talvez a pergunta de Brecht não tenha sido assim tão despropositada.

“É preciso desconfiar dos bancos! Eles não querem o nosso bem…”

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