Marmita

Luis de Matos - Thursday, February 23, 2012 - Comentários (2)

Nos últimos dias, a propósito da iniciativa de uma empresa que passou a fabricar uma espécie de lancheiras de luxo, as televisões chamaram a atenção para o facto de os portugueses estarem cada vez mais a levar o seu almoço para o trabalho. O facto relatado poderia ter servido para exaltar o crescente e aconselhável cuidado com o regime alimentar, a forma como criativamente os portugueses enfrentam a crise ou, tão simplesmente, a excelente iniciativa da empresa que re-inventou as lancheiras e as converteu em acessórios de moda. Nada disso. A notícia é dada em tom de desgraça com especial ênfase na vergonha supostamente associada a tal prática. Coitadinhos dos portugueses que têm que levar o almoço para o trabalho… Pergunto eu, e depois? Qual é o problema? Mau seria roubar, ser toxicodependente ou não ter emprego.

Aquilo a que alguns chamam moda da marmita reflecte apenas uma ignorância pretenciosa de muitos em relação a um país real onde, cada vez mais, menos pessoas têm disponibilidade para gastar cento e cinquenta ou duzentos euros, por mês, em refeições rápidas alegadamente económicas. Levar o almoço para o trabalho, para quem puder permitir-se esse luxo, é uma forma de não desperdiçar dinheiro e, acima de tudo, controlar o regime alimentar, tanto na qualidade e quantidade como até mesmo na escolha da ementa. Todos os dias nos queixamos do proibitivo preço dos combustíveis, mas todos achamos normal pagar um euro por uma garrafinha de água de 33 centilitros. Porque será que ninguém faz as contas e percebe que isso faz com que estejamos a pagar a água a mais de três euros o litro? Portanto, mais cara que a gasolina… Pois é, vivemos numa parte do mundo onde a água da torneira é tão boa mas continuamos a cair no comodismo de comprar garrafinhas com rótulos “tipo design”.

Os fundadores da “mescla store” pertenciam ao grande grupo de portugueses habituados a levar a marmita para o emprego. Não gostavam muito do saco de plástico com o Tupperware no interior e não achavam muita graça a ficar com as malas a cheirar a prego no pão. Foi aí que decidiram inventar as lancheiras de luxo. Em vários modelos, com aspecto de malas de grande estilo e distinção, para o menino e para a menina, mais práticas ou mais arrojadas, vêm equipadas com talher, encomendam-se pela internet (código abaixo) e custam cerca de trinta euros.

Para quem está cansado de comer sempre no mesmo boteco ao lado do escritório, já não suporta encontrar-se sempre com os mesmos à hora de almoço e esperar que lhe arranjem uma mesinha, se queixa de que quase tudo sabe ao mesmo, suspeitando da reduzida frequência com que o chefe de cozinha muda o óleo da fritadeira, esta parece ser a solução. Se calhar vamos perceber que não só passaremos a comer melhor como, quem sabe, pouparemos durante a semana o suficiente para, de quando em vez, levar a família toda ao restaurante.

Viva a moda da marmita, abaixo o preconceito patético que ensombra a nossa liberdade.

“A gasolina está cara, mas pagamos o triplo por água engarrafada…”

Comentários (2)
Helena Silva commented on 13-Mar-2012 03:53 PM
Os Senhores da Restauração também precisam de sobreviver. Se as pessoas tiverem um dinheirinho razoável no bolso, em vez de comerem o bitoque, até preferem o peixinho. Digo eu... com todo o respeito.
Carmen Conde commented on 23-Aug-2012 04:44 PM
Bem se houvesse aquilo com que se compram os melões viajava-se mais... Assim talvez se pudesse ver a realidade dos outros países em que na Suécia, a título de exemplo, há muito tempo que não existem funcionários em bares escolares e onde todos os professores
levam a boa da marmita para a escola. Ora deixa-me cá ver desde quando? Oh... pois ... desde sempre! Curioso!

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