Perdoem

Luis de Matos - Thursday, April 19, 2012 - Comentários (0)

Há pessoas que, de facto, não sabem o que dizem. Ou porque não pensam antes de se pronunciar ou até porque deliberadamente se escusam de o fazer por terem medo que alguém possa chegar a nelas identificar algum resquício de massa cinzenta. Algumas pessoas acham que “pensar” dá muito trabalho e, pior ainda, pode mesmo acarretar represálias. Determinadas profissões parecem convidar ao autismo voluntário na persecução da mais imbecil das atitudes que, apesar de tudo, se toma a coberto de uma supostamente correcta interpretação de uma determinada lei. A estrela desta história é uma senhora que exerce funções de Directora de Serviços na DSIVA (Direcção de Serviços do Imposto sobre o Valor Acrescentado). Não revelarei o seu nome por respeito aos seus familiares e amigos.

Diz o ponto 2.6 da lista II anexa ao Código do IVA que devem as Entradas em Espectáculos de canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia e circo ser tributadas à taxa intermédia de 13%. Até aqui tudo muito bem. Fica bem esta aparente preocupação com a cultura. O que tem menos graça é que, por absoluto descargo de consciência, e porque estamos actualmente em digressão por todo o país com o espectáculo CHAOS, resolvi contactar a referida Direção de Serviços do Imposto sobre o Valor Acrescentado esperando a resposta óbvia de que a medida se aplicaria a todos os espectáculos em geral, ou pelo menos aqueles que até misturam um pouco de algumas das áreas mencionadas… Atenção! Pára tudo! A resposta que obtive foi negativa! Um espectáculo de magia não se insere na dita alínea porque não é considerado canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia ou circo!!! Digam lá que isto até não teria piada não fosse o facto de ser verdade…

Este episódio recorda-me um documento precioso, que arquivo com carinho na minha biblioteca, e que reproduz uma resposta de quem nos governava antes da revolução dos cravos. Nessa época, um bem intencionado grupo de ilusionistas, com carteira profissional e tudo, como se usava na época, dirigiu a quem mandava um pedido que visava a criação de uma associação profissional. A resposta, lacónica e implacável, não se fez tardar e surpreendia com as seguintes palavras: “… o pedido é indeferido em virtude da expressão cultural em causa não ser digna de ser considerada.”. Naturalmente, a carta oficial terminava com um não menos oficial “A Bem da Nação.” Quarenta anos mais tarde, tenho eu o privilégio de receber uma jóia de resposta que já não pensava ser possível.

Em virtude da mesma alínea excluir claramente as entradas em espectáculos de carácter pornográfico ou obsceno, só posso ser levado a pensar que a dita senhora inclui as minhas apresentações nesse âmbito. Minha querida senhora, aconselho-a a sair mais de casa.

Fica então a ressalva. Não estranhem se virem algum dos meus espectáculos a ser anunciado como canto, dança, música, teatro, cinema, tauromaquia ou mesmo circo. Percebem porquê, certo?

“Luis de Matos apresenta o seu espectáculo de tauromaquia…”

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