Rituais Sociais

Luis de Matos - Thursday, September 29, 2011 - Comentários (1)

Esta semana participei pela primeira vez numa entronização solene. Quem hoje vos escreve é o “Grande Confrade de Honra” da Confraria da Cerveja. Mais do que partilhar convosco essa minha nova condição de forma pedante e pretenciosa, quero apenas falar-vos do que vivi nessa tarde e do principal prazer que, sem esperar, acabaria por sentir.

Numa sociedade onde o significado do verbo “socializar” muda diariamente em função dos novos hábitos através dos quais interagimos, é bom voltar a sentir o prazer de encontrar e conversar com pessoas de carne e osso. A internet veio potenciar e aumentar as formas como socializamos mas também impôs uma norma que veio tornar-nos mais preguiçosos. Hoje em dia viajamos pelo mundo sem sair de casa. Isso é verdadeiramente notável se, apesar de tudo, continuarmos a sair de casa.

No decorrer da entronização de que vos falo, a 9ª da Confraria da Cerveja, fiquei particularmente impressionado por ver pessoas e empresas cuja história de relacionamento se pauta por visceral competitividade e, ainda assim, unidos em torno de uma celebração. Enquanto assistia à entrada de outros novos membros, tive a grata oportunidade de trocar impressões com o Prof. Marçal Grilo e o Eng. Carlos Moedas. As sucessivas promessas de “promover e prestigiar  a cerveja” poderiam, assim descritas, chegar a ter um tom caricato, porém, a dignidade e o espírito vividos no decorrer da cerimónia tornaram o momento simbólico e absolutamente memorável. Testemunhar a forma como figuras de proa da nossa sociedade e altos cargos da nação e vida pública nacional se uniram, desprovidos de qualquer preconceito, em torno de uma ideia comum foi verdadeiramente inspirador.

A capacidade humana de nos associarmos, interagirmos e partilharmos as nossas ideias na persecussão de novas e melhores formas de interpretarmos e construírmos o que nos rodeia é algo a que devemos dedicar mais atenção e energia. A mudança é possível e permanentemente necessária, só assim se consegue uma evolução positiva.

As confrarias ou irmandades são certamente um caminho de união de ideias. Não mais são unicamente associações religiosas de leigos no catolicismo tradicional que se reuniam para promover um determinado culto. Essas surgiram na Europa na Idade Média. As que hoje nos rodeiam são associações de homens quase livres que se unem para fazer a força, para empurrar as ideias e para construir um amanhã diferente e, se possível, melhor.

Socializar é reunir em sociedade. Socializar é unir esforços em benefício da colectividade. Socializar é explorar identidades e relações num constante impulse de mudança. Viva a “Confraria da Cerveja”, vivam todas as “confrarias” de homens de bem.

“Urge reinventar os mecanismos que nos fazem interagir de verdade… ”

Comentários (1)
Adérito Ferreira commented on 02-Feb-2012 11:36 PM
O Autor deste artigo revela grande sensibilidade e capacidade humana. Nutre um grande carinho pela partilha de valores humanos e revela um olhar atento, pelo que o rodeia. Parabéns!

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