Saudades da Baixa

Luis de Matos - Thursday, September 22, 2011 - Comentários (1)

Durante a semana que passou, estive pela baixa de Coimbra de uma maneira em que só por lá estou seis dias por ano. Na terceira semana de cada mês de Setembro, ao longo dos últimos quinze anos, por ocasião dos Encontros Mágicos, passo grande parte da manhã, tarde e noite pelas ruas da baixa de Coimbra. Este ano fiquei preocupado como nunca antes havia acontecido. As lojas fecham, a marginalidade aumenta e a miséria humana começa a ser preocupante, visível e quantificável.

A Baixa de Coimbra precisa da nossa atenção. Corta o coração ver estabelecimentos, que antes conhecíamos como emblemáticos, transformados em cubículos fechados que hoje compram ouro sob a promessa de cobrir a melhor oferta. Dói ver imóveis envoltos em história com aspecto que subentende uma recuperação incomportável para os que os possuem e que se reafirma pela presença de um qualquer “vende-se”. A prostituição e a toxicodependência têm dificuldade em disfarçar-se. As beatas de cigarro não abundam mas apenas porque a maioria já foi coleccionada por quem as reaproveita. Algumas lojas fecham, fogem para os centros comerciais ou simplesmente passam a ter um nome que se escreve com caracteres chineses. Tudo isto desencanta e limitamo-nos a achar que somos impotentes para evitar um futuro que apenas se teme e não se contraria.

Sou dos que pensam que a solução está em todos nós. A Baixa é de todos e não podemos alhear-nos da responsabilidade pelo estado em que se encontra. As lojas fecham porque passámos a comprar online. A marginalidade aumenta porque deixámos de passear nalgumas zonas. É preciso agir.

Cada um de nós conheceu a Baixa de uma maneira diferente. Foi-nos entregue pelos nossos antepassados numa forma tal que por ela nos apaixonámos. Não podemos entregá-la assim ou pior ainda, aos que nos seguirão. Num jardim onde as plantas não se cuidam, as infestantes alastram. Uma árvore que não se poda sempre cresce de forma selvagem. É preciso tomar conta da Baixa. É preciso vivê-la e ocupá-la de experiências que a tornem mais apetecível e não num espaço onde não queremos passear com os nossos filhos.

Durante a semana dos Encontros Mágicos, milhares de pessoas passaram horas nas ruas da Baixa. Famílias inteiras participaram em experiências inesquecíveis, plenas de momentos em que o reencontro com a arte e  com o espaço perdurará nas suas memórias. Obrigado a todos por nos ajudarem a relembrar que a Baixa é Mágica..

“Recuperar e proteger a Baixa de Coimbra é obrigação de todos nós… ”

Comentários (1)
Carmen Conde commented on 15-Oct-2011 04:02 PM
É verdade amigo Luís! Nâo tive oportunidade de vivenciar a cidade de Coimbra da mesma forma que tu, em virtude de ter crescido a muitos kms de distância, porém encontrei uma cidade bem diferente daquela que encontrei em 1996 quando me desloquei até lá
para conhecer o ídolo do meu imaginário por altura da inauguração do Bar João Ratão. Apesar do nervosismo que esse encontro com o mágico Luís de Matos me causava e que acabou por me turvar um pouco daquilo que julgava conhecer da cidade e, agora há distância
de cerca de 18 anos é que pude efectivamente conhecer Coimbra com olhos de ver. Assisti a um sem número de lojas fechadas na Baixa e ao passar por uma igreja branquinha vi algo que nunca tinha visto em Coimbra... os mendigos! Não pude passar indiferente junto
a um deles que me parecia vir dos Países de Leste e que tinha um filho de tenra idade ao colo a quem dei um queque que trazia embrulhado na minha mão para comer mais tarde. Horrificada com tal imagem... tentei lembrar-me de onde encontrara vezes sem conta
uma imagem semelhante e só encontrei paralelo para a mesma em Badajoz e Sevilha na década de 90, onde ia regularmente com a minha irmã fazer compras. Ainda me arrepio do choque que tive ao ver um homem sem pernas e braços simplesmente sustido em pé por uma
armação feita a partir do quadro de uma bicicleta. Em frente do seu tronco jazia imóvel uma tigela envelhecida pelo tempo e uma tabuleta que dizia "É para comprar um Ferrari!". No meio de tanta desgraça, o senhor ainda conseguia manter o bom humor! Meus amigos,
isto não é para todos!UI! Que visão! Talvez já tivesse visto tal imagem em Portugal... mas agora infelizmente é um fenómeno social cada vez mais frequente e evidente aos nossos olhos por onde quer que se passe. Julgo é premente começar por algum lado a resolver
este tipo de visões... mas lanço o repto a quem de direito para que ponha mãos ao trabalho para que se consiga travar o agravar da situação!

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